A ASCENSÃO DA LIBERDADE

Voltemo-nos agora para lançar uma olhadela de conjunto para a estrada que acabamos de percorrer.

À nossa volta, de início, nós pensávamos constatar a presença duma Humanidade desagregada e desordenada: a multidão, a massa, – onde não distinguíamos senão talvez a fealdade e a brutalidade.Procurei, apoiado nas conclusões mais gerais e mais sólidas da ciência, fazer que subísseis acima desta agitação confusa. E, à medida que íamos subindo cada vez mais, eis que a cena, vista de mais alto, se regularizava. Como pétalas dum lótus gigante ao cair da tarde, camadas humanas, de dimensões planetárias, foram-nos aparecendo, fechando-se lentamente sobre si mesmas. E, no coração deste enorme cálice, sob a própria pressão da concentração, descobriu-se um potente foco onde a energia espiritual, gradualmente libertada por um vasto mecanismo totalizador, de seguida concentrado hereditariamente numa espécie de super-cérebro, se transformava pouco a pouco numa visão comum sempre cada vez mais apaixonada. – Neste espectáculo simultaneamente pacificado e intensificado, onde as irregularidades de pormenor, tão desconcertantes à nossa escala individual, se apagam para dar lugar a um largo, tranquilo e irresistível movimento de fundo, – neste espectáculo, dizia, tudo se mantém e tudo se liga com o resto do Universo. Vida e consciência deixam de ser anomalias acidentais na Natureza; mas na Biologia, aparece de repente uma face complementar da Física e da Matéria. Aqui, repito, o Tecido do Mundo que se desagrega irradiando a sua energia elementar; acolá, este mesmo tecido que se reúne irradiando o Pensamento. Algo de fantástico nas duas extremidades. Mas não será necessário um para equilibrar o outro? – Harmonia, pois, em perspectiva. Mas também programa de futuro: pois que, uma vez admitidas estas visões, é um objectivo magnífico, uma linha de marcha precisa, que se apresentam à nossa ação.

Coerência e fecundidade, os dois critérios da verdade. Tudo isto ilusão, – ou realidade?

Tereis que fazer a escolha. Mas aos hesitantes, ou aos que se recusem comprometer-se, direi simplesmente: «Para explicar cientificamente o fenómeno humano, tomado integralmente nos seus desenvolvimentos passados e na marcha do presente, tendes outra coisa ou algo de melhor a propor?»

Tudo isso está muito bem, dir-me-eis. Mas, no sistema que pretendeis tão coerente não faltará precisamente um elemento essencial? No seio do aparelho grandioso que credes ver em marcha, o que é que acontece à pérola do nosso ser, o que sucede com a nossa liberdade?

A liberdade, responderei, mas não vedes então, do ponto em que me coloco, que ela aparece por todos os lados, – e que ela cresce por todos os lados?

Eu sei: por uma espécie de obsessão inata, não conseguimos desembaraçar-nos da ideia de que é ficando o mais isolados possível que nós seremos mais senhores de nós próprios. Ora, não será o contrário que é verdade ? Não o esqueçamos. Em cada um de nós, por estrutura, tudo é elementar, incluindo mesmo a nossa liberdade.

Impossível desde logo continuarmos a libertar-nos sem nos reunirmos e nos associarmos convenientemente. Operação perigosa, certamente, uma vez que, seja misturadas em desordem, seja engrenadas entre si como simples maquinismos, as nossas atividades neutralizam-se ou mesmo mecanizam-se (como experimentamos à saciedade). Mas operação salvífica, também, visto que, unidas centro a centro (ou seja, numa visão ou numa paixão comuns), elas se enriquecem indubitavelmente. Uma equipe, dois amantes… Operada na simpatia, a união não se limita, ela exalta as possibilidades do ser. A uma escala limitada, é o que se experimenta por todos os lados e todos os dias. A uma escala mais vasta, à escada do total, se a lei é inerente à própria estrutura das coisas, por que não haveria ela de valer ainda mais?

Simples questão de intensidade no campo que polariza e atrai. No caso duma união cega ou dum arranjo puramente instrumental, é verdade que o jogo dos grandes números materializa, – mas, no caso duma unanimidade realiza pelo interior, ele personaliza e mesmo, acrescentaria eu agora, infalibiliza as nossas actividades. Uma só liberdade, tomada isoladamente, é fraca, incerta e pode facilmente errar nos seus tateios. Uma totalidade de liberdades, agindo livremente, acaba sempre por encontrar o seu caminho. E eis por que, incidentemente, sem minimizar o jogo ambíguo da nossa escolha em face do Mundo, eu pude sustentar implicitamente, no decurso desta conferência, que nós avançávamos, livre e inelutavelmente, para a Concentração através da Planetização. Na evolução cósmica, poder-seia dizer, o determinismo aparece nas duas pontas, mas, aqui e lá, sob duas formas antitéticas: em baixo, uma queda no mais provável por defeito, – em cima, uma subida para o improvável por triunfo de liberdade.

Estejamos, pois, seguros. O enorme sistema industrial e social que nos envolve não tende a esmagar-nos, não procura desprover-nos da nossa alma. Não só a energia que emana dele é livre no sentido em que ela representa as potências disponíveis; mas livre é ela ainda porque (tanto no todo como no mais humilde dos elementos), se desprende no sentido dum estado sempre mais espiritualizado. Um pensador como Cournot podia ainda imaginar que o grupo socializado se degrada biologicamente relativamente aos indivíduos que engloba. Não é (vemo-lo atualmente melhor) senão mergulhando no coração da Noosfera que nós poderemos esperar, que poderemos estar seguros, de encontrar, todos juntos, tanto quanto cada um de nós, a plenitude da nossa Humanidade.

(Capítulo de conclusão do artigo de Teilhard de Chardin publicado na Revue des Questions scientifiques, em 1947, intitulado “A formação da noosfera”).

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