“A energia máxima será sempre o amor”

Ana Luisa Janeira explica o conceito de energética teilhardiana e como Teilhard de Chardin formulou a tese que se tornou a base de seu pensamento

Por: Graziela Wolfart e Márcia Junges

Ana Luisa Janeira considera Teilhard de Chardin um pensador que desenvolve suas ideias a partir de um conceito de evolução muito próximo ao seu pensamento (de Teilhard de Chardin) e que tem uma visão marcadamente espiritualista da evolução, além de teológica e sintética. A filósofa portuguesa esteve na Unisinos no último mês de setembro, participando do IX Simpósio internacional IHU: Ecos de Darwin, onde proferiu a conferência intitulada “A energética teilhardiana: missão evolutiva em terras cristãs”. A entrevista que segue foi concedida pessoalmente. Janeira explica que, segundo Teilhard de Chardin, tudo se desenvolve “numa lei da complexidade consciente. Quanto mais a matéria é complexa, maior consciência haverá. E, nesse caso, a pessoa humana aparece como aquela que sabe o que sabe, isto é, saber ao quadrado. Ela não é o término da evolução, ela é um marco, e, a partir dela, a evolução é constituída, não em termos de cosmogênese, nem de biogênese, mas em termos de noogênese, criando a noosfera. E essa noosfera é que é fundamentalmente a dimensão sociológica da evolução”.

Ana Luisa Janeira é professora na Universidade de Lisboa, Portugal, doutora em Filosofia Contemporânea pela Université de Paris I, e autora de A Energética no Pensamento de Teilhard de Chardin (Livraria Cruz-Faculdade de Filosofia, 1978).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é a energética teilhardiana?

Ana Luisa Janeira – A partir da segunda metade do século XIX, quando foram assumidas a primeira e a segunda lei da termodinâmica, houve uma movimentação do pensamento dominante para as questões da energia. E o conceito de energia tornou-se muito influente,  quase como o conceito de evolução. A partir de certa altura, começou-se a falar de evolução de várias coisas, que é um conceito gerado no interior da geologia e da biologia, e que depois se expande para outras áreas. O mesmo acontece com o conceito de energia. E então, Teilhard de Chardin,  que nasce em 1881, apercebe-se, durante sua formação, da importância desse conceito, e desenvolve uma visão do mundo, uma ideologia baseada na questão da energia. E é isso que ele chamou de energética, que se caracteriza pela existência de duas energias: a energia tangencial e a energia radial. A energia tangencial atua ao nível da matéria, e a energia radial atua ao nível do espírito. E Teilhard definiu uma relação entre as duas, dizendo que para uma energia máxima tangencial há um mínimo de energia radial. E que para uma energia máxima radial, há um mínimo de energia tangencial. E isso constituiu, de fato, a partir de um momento importante da vida dele, a base do seu pensamento. E ele equacionou todo o pensamento a tal ponto que, por inerência deste conceito, a energia máxima será sempre o amor.

IHU On-Line – Muitas pessoas chamam Chardin de “Darwin católico”. Que aproximações a senhora faria entre ambos os cientistas?

Ana Luisa Janeira – Ah, eu não faço aproximação nenhuma. Considero que Teilhard é um pensador que desenvolve suas ideias a partir de um conceito de evolução muito próximo ao seu pensamento e que tem uma visão marcadamente espiritualista da evolução, além de teológica e sintética. Espiritualista porque, em última análise, a evolução tende para um aumento do espírito; sintética porque ele não tem uma visão da descrição da energia à maneira, por exemplo, de Bergson,  e, simultaneamente, tem um conceito finalista de evolução. Não sou muito partidária de grandes comparações, porque era preciso que eu conhecesse tanto Darwin quanto Teilhard para poder compará-los. Conheço mais Teilhard, por isso é preferível não fazer comparações.

IHU On-Line – O que caracteriza a ideia de evolução no pensamento de Teilhard de Chardin?

Ana Luisa Janeira – No caso de Teilhard, tudo se desenvolve, segundo ele diz, numa lei da complexidade consciente. Quanto mais a matéria é complexa, maior consciência haverá. E, nesse caso, o homem aparece como aquele que sabe o que sabe, isto é, saber ao quadrado. Ele não é o término da evolução, ele é um marco, e, a partir dele, a evolução passa, é constituída, não em termos de cosmogênese, nem de biogênese, mas em termos de noogênese, criando a noosfera. E essa noosfera é que é fundamentalmente a dimensão sociológica da evolução.

IHU On-Line – Em sua opinião, Chardin conseguiu harmonizar teoria da evolução e cristianismo? 

Ana Luisa Janeira – Essas harmonias nem sempre são muito conseguidas. Muitas vezes, elas acabam por destruir, anular, ou reduzir certas diferenças. Mas como projeto foi algo muito consistente e muito bem conseguido. Evidentemente que muitos católicos continuaram a achar que as ideias dele não têm consistência do ponto de vista da teologia cristã ortodoxa, e também muitos cientistas continuaram a achar que as propostas que ele tem não contribuem em absolutamente nada com as ideias mais avançadas da evolução do ponto de vista científico.

IHU On-Line – Os críticos de Chardin acusam-no de ter uma visão demasiado otimista da natureza, que flerta com o panteísmo. Em que medida o jesuíta se inspira em Darwin para compor a sua cosmovisão?

Ana Luisa Janeira – Acho que não. Ele tinha uma forte personalidade e uma maneira única de ser, de intimidade constante com a natureza. É provável que algo tenha acontecido com ele desde criança, porque ele nasce e vive numa zona onde domina uma imensa montanha e onde a natureza é muito exuberante, principalmente o espetáculo geológico de uma elevação imensa com características muito fortes. Parece que seu pai era fascinado pelas questões da geologia, das rochas, e é natural que ele tenha vivido essa sintonia, esse casamento com a natureza de uma forma muito intensa. E isso foi se desenvolvendo depois, pois ele se tornou paleontólogo, acabou vivendo no mundo dos biólogos e geólogos e isso cria naturalmente uma aproximação. Agora, não sei se é panteísta, ou se não é. O que interessa é a sua capacidade de escrever quando se encontra no deserto e não tem outra opção. La messe sur le monde  é de uma paz incontornável para a cultura no século XX.

IHU On-Line – Qual é o significado de se comemorar o bicentenário do nascimento de Darwin?

Ana Luisa Janeira – A Unisinos, no fundo dessas comemorações, posiciona-se com uma vanguarda avançada de pensamento e se mostra capaz de reconhecer em Darwin uma figura que inovou diante de suas possibilidades e de seus limites, num pensamento arrojado, original, criativo, revolucionário até. É algo muito importante nesse momento em que vivemos no mundo, muitas vezes, marcado por um conformismo, uma formatação que é própria da televisão, e há uma tendência muito forte para a normalização entre as pessoas. Darwin continua sendo um exemplo de alguém que arrojou com uma estratégia especial.

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