A humanidade como o centro da revelação

Físico e teólogo jesuíta analisa presença de Deus no cosmos e na humanidade, apoiado nas ideias de Teilhard de Chardin. Com o desafio da ecologia, precisamos considerar que a vida cristã está encarnada no cosmos, na humanidade, acentua

Por: Márcia Junges
Tradução: Lucas Schlupp e Walter Schlupp 

“Deus não está presente no cosmos diretamente, mas através da humanidade. A humanidade tem uma responsabilidade, e isso é mais evidente na Terra e menos evidente no cosmos em geral, mas a humanidade como princípio é realmente o centro da revelação”. A afirmação é do físico e teólogo jesuíta François Euvé, na entrevista exclusiva que concedeu, pessoalmente, à IHU On-Line, por ocasião de sua vinda à Unisinos como conferencista do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. Ele continua: “Agora, especialmente por causa do desafio da ecologia, temos que levar em consideração que a vida cristã está encarnada no cosmos. Então um teólogo cristão não pode ignorar o que acontece no campo da ciência”. Esse é um dos motivos que faz crescer o interesse pela ciência entre os teólogos. Por outro lado, os cientistas são cada vez mais questionados, e há um movimento contrário, da ciência indo em direção à teologia, explica. Interessado na teologia da criação, em teologia fundamental e na relação entre as ciências naturais e a teologia, Euvé revela entusiasmo pela ideia de Cristo cósmico, desenvolvida por Teilhard de Chardin. Não se trata “de Cristo como redentor da humanidade, mas como redentor do cosmos em si”.

François Euvé é doutor em Teologia pelo Centro de Sèvres, onde leciona teologia dogmática e fundamental desde 1997, e é decano da Faculdade de Teologia dessa instituição. É diretor da Cátedra Teilhard de Chardin. Graduado em Física de Plasma pela Universidade Paris XI, entrou, logo após a conclusão do curso, para a Companhia de Jesus, em 1983. Foi ordenado sacerdote em 1989. De 1992 a 1995, ensinou Teologia no Instituto Saint-Thomas, em Moscou, na antiga União Soviética. De suas publicações, citamos Pensar a criação como jogo (São Paulo: Paulinas, 2006), Science, foi, sagesse. Faut-il parler de convergence? (Paris: L’Atelier, 2004 ) e Christianisme et nature (Paris: Vie chrétienne, 2004).

Confira a entrevista

IHU On-Line – Onde você nasceu? Quais são suas origens?

François Euvé – Nasci na França, em uma pequena cidade ao Sul de Paris. A origem da minha família é Paris. Então, tenho muitas conexões com esta cidade. Nasci em berço católico e tive, o tempo todo, um bom relacionamento com a Igreja. Fui muito feliz em estudar numa escola jesuíta, ao final da minha primeira formação. Essa foi a primeira oportunidade que tive de ter contato com a Companhia de Jesus. Durante a formação universitária e meu trabalho com pesquisa, mantive contato com os jesuítas, especialmente através das Comunidades de Vida Cristã (Christian Life Communities – CLC). Eu era um de seus membros. Esta foi a razão pela qual eu decidi entrar na Companhia. Minha formação é em Física, e fiz meu doutorado em Física de plasma. Atualmente trabalho nesta área. Entrei na Companhia de Jesus após alguns anos fazendo pesquisa em Física. Minha formação na Companhia é de Filosofia e Teologia. Assim, decidi mudar da pesquisa em Física para Teologia. Meus principais interesses agora são a teologia da criação, teologia fundamental (sistemático-dogmática) e a relação entre as ciências naturais e a teologia.

IHU On-Line – Como descreve a comunhão entre fé e ciência nos seus interesses pessoais?

François Euvé – No princípio, eu via estes como apenas dois campos diferentes. Estava feliz com meu trabalho, gostava de fazer pesquisa em Física. Vejo a pesquisa como um trabalho muito interessante e emocionante. Eu diria que é uma espécie de vocação. Ao mesmo tempo, era um cristão praticante. Na verdade, tinha alguns questionamentos na interface entre ciência e fé cristã. Por essa razão, durante a universidade, decidi estudar teologia para conseguir responder alguns questionamentos que eu tinha sobre a criação, a atuação de Deus e assim por diante. Não tive problemas em ser cientista e cristão. Só queria lançar luz sobre algumas questões, e, naquela época, nos anos 1970, não havia grandes debates entre ciência e religião na França. Então, na verdade, meu interesse em teologia era mais na área de psicologia, ou sociologia, ou Bíblia, questionamentos típicos, e nem tanto sobre a criação em si. Muitos anos depois, quando terminei o doutorado em teologia, é que voltei a esses questionamentos entre ciência, religião e criação.

IHU On-Line – Como foi sua experiência em Moscou, ensinando teologia? Quando aconteceu? E quais são as suas principais memórias daquele tempo?

François Euvé – Esse é outro aspecto interessante da minha vida. À parte minhas pesquisas em ciência e teologia, por muito tempo estive interessado na cultura russa. Quando estudante, comecei a aprender russo. Nos anos 1960, era questionável na França aprender esse idioma na escola. Ainda nessa época, tive a oportunidade de viajar para a então União Soviética. Quando entrei na Companhia, disse a meu superior que tinha esse interesse pela cultura russa e tentava manter a prática nos idiomas. No final dos anos 1980, houve a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Em 1992, a Companhia de Jesus aventou se seria interessante eu ir para lá. Como era um dos vários jesuítas no país que já sabia russo, fui convidado a fazer essa viagem. Aceitei. Isso foi no final da minha formação na Companhia. Não estava ocupado com pesquisa ou ensino. Fiquei lá por três anos. Depois de dois anos, refleti e achei que não era minha verdadeira vocação ficar em Moscou. Foi uma boa experiência. Ensinei em um pequeno instituto teológico, que, na época, pertencia à diocese, e a Companhia de Jesus depois assumiu. Ensinei teologia, eclesiologia e ecumenismo.

Outro aspecto importante foi que, quase por acaso, tive a possibilidade de ter contato com cientistas. Não eram pessoas que eu conhecesse antes. Através do Observatório do Vaticano, tive contato com alguns cientistas astrônomos em Moscou. Eles me deram o endereço e fui visitá-los. Novamente, a criação, origem, a ciência, e assim por diante, voltaram para mim. Pensei que seria importante voltar a esse campo, e hesitei se ficaria na Rússia e participaria na missão geral da Companhia na Rússia, ou se eu voltaria a fazer mais pesquisa acadêmica. Então, esse contato com os cientistas lá me ajudou a decidir a voltar à pesquisa teórica nesse campo da criação e ciência. Voltei para Paris e comecei meu doutorado em Teologia. Quanto à Rússia, continuo em contato com algumas pessoas de lá, mas apenas em termos de amizade, não em relação a interesses profissionais.

IHU On-Line – O que a cultura ocidental pode aprender com países como a Rússia, por exemplo? Além disso, como está a situação do diálogo entre os católicos romanos e os ortodoxos?

François Euvé – É uma situação complicada. Na verdade, a igreja russa, ortodoxa, está agora num processo de reconstrução. O interesse dela está muito concentrado nos seus próprios problemas e questões. O mesmo, mais ou menos, vale para os católicos na Rússia. Estão mais interessados na vida paroquial e litúrgica, no serviço social, do que com questões teológicas e ecumênicas. Há alguns lugares para diálogo. Tive bons contatos com alguns padres teólogos, em Moscou, onde participei de congressos ou simpósios. Foi uma experiência interessante. Mas, na verdade, no meu campo de pesquisa atual, não há tantos trabalhos feitos por teólogos ortodoxos russos. Não tive oportunidade real para trabalhar com eles. Naquela época, os encontros eram sobre a vida na Igreja e questões mais gerais. E nessas questões não tenho mais interesse. É possível ter um bom relacionamento com teólogos e círculos acadêmicos ortodoxos. Toda a vida paroquial é diferente, é meio complicada, pois depende principalmente do lugar. Em Moscou, a situação é muito mais difícil do que no interior. Algumas comunidades católicas têm relações muito boas com os ortodoxos. Mas depende do lugar. Além disso, alguns católicos tinham uma atitude com os ortodoxos que não era muito conveniente. Devo dizer, ainda, que não estou mais muito envolvido com a questão ecumênica.

IHU On-Line – Como diretor da Cátedra Teilhard de Chardin,  qual é seu ponto de vista a respeito do conceito de Cristo cósmico?

François Euvé – Primeiramente, gostaria de mencionar alguns aspectos sobre a Cátedra Teilhard de Chardin que funciona no Centre Sèvres, em Paris. Antes de mais nada, interesso-me por Teilhard de Chardin por causa da minha pesquisa no diálogo entre ciência e religião. Na França e na cultura francesa, esse pensador foi um dos que mais se envolveram nesse diálogo. Evidentemente, como jesuíta, precisamos nos interessar por ele. Trabalhei sobre suas ideias e, há cinco anos, decidimos começar com o que chamamos de Cátedra Teilhard de Chardin, primeiramente para encorajar todos os trabalhos sobre esse jesuíta e para desenvolver e pesquisar sobre questões de ciência e religião. Então, esse é o contexto. Quanto às ideias desse pensador, diria que estou muito interessado na concepção de estender a abordagem teológica de Cristo para a escala do Universo. Não apenas Cristo como redentor da humanidade, mas como redentor do cosmos em si. Claro que não é uma ideia fácil, porque o principal interesse da Bíblia é pela humanidade e sua criação, como um lugar especial para as ideias de Deus, se é que posso dizer assim.  O cosmos como tal não é o centro da revelação cristã. Mas agora ficamos mais conscientes da importância da matéria, do corpo, do universo nas nossas vidas.

Teilhard tinha essa intuição de que o que aconteceu, o que tem a ver com a revelação cristã, tem a ver também com o que acontece no universo. Então, esse conceito de Cristo cósmico não quer dizer que Cristo em si seja identificado com o cosmos como tal, numa espécie de panteísmo. A sua ideia não é bem esta. Mesmo que Theilhard não tenha detalhado isto, penso que é através da humanidade que Cristo está presente, e Deus está presente no cosmos. Deus não está presente no cosmos diretamente, mas através da humanidade. A humanidade tem uma responsabilidade, e isso é mais evidente na Terra e menos evidente no cosmos em geral, mas a humanidade como princípio, a humanidade como tal, é realmente o centro da revelação. A pessoa humana não é apenas a alma, ou espírito, ela é corpo. E através do corpo ela está presente, está dentro do universo. Esta é a forma como eu posso, mais ou menos, explicar essa ideia de Cristo cósmico.

IHU On-Line – Chardin tentou unificar fé e ciência em seus livros. Como você vê esse diálogo hoje? Acredita que hoje em dia esse diálogo melhorou?

François Euvé – Mais ou menos. É um tipo de paradoxo. Na verdade, como disse antes, digamos há uns 30 ou 40 anos atrás, não havia tanto interesse para o diálogo entre ciência e fé. Porque são dois campos diferentes, separados. Os cientistas se concentravam em fazer toda a pesquisa e desenvolver todas as teorias, e assim por diante. E, por outro lado, a fé cristã preocupava-se apenas com o que acontecia com a humanidade, Igreja. Agora, especialmente por causa do desafio da ecologia, temos que levar em consideração que a vida cristã está encarnada no cosmos. Então, um teólogo cristão não pode ignorar o que acontece no campo da ciência. Esse é um ponto: entre os teólogos aumenta o interesse pela ciência. E, por outro lado, entre os cientistas modernos está havendo um questionamento cada vez maior e bem considerável. Pois a ciência, agora, está sendo questionada por muitas pessoas. Para quê? Onde e por que fazer ciência? Qual é o futuro da humanidade? Qual é o futuro do universo? E assim por diante. São questões formidáveis. Vários cientistas se perguntam isto. Como eu disse, aumenta o interesse mútuo entre as duas áreas. Por outro lado, existe um desenvolvimento de tendências fundamentalistas, como é o caso do cientista britânico Richard Dawkins.

IHU On-Line – Um fundamentalismo baseado na razão…

François Euvé – Sim, isso mesmo! Um tipo bem estreito de razão.

IHU On-Line – Sobre a teologia, especificamente, qual é a situação dessa ciência na Europa? Quais são seus principais desafios diante da sociedade pós-moderna?

François Euvé – Eu poderia dizer que somos confrontados com novos problemas. Acredito que um bom ponto de partida poderiam ser os problemas ecológicos. Além de estarmos ficando cientes do futuro da Terra, estamos mais conectados num estado de espírito histórico, numa forma histórica de pensar. Nós não podemos pensar mais em ciência como uma forma razoável permanente de ver o mundo, como se este fosse ordenado em categorias fixas. Encontramo-nos mais em uma forma evolucionista de pensar, de ver o mundo. Nisso eu entrelaço os conceitos “evolucionista” e “histórico”.

IHU On-Line – O que o senhor está lendo agora? Algum livro específico?

François Euvé – Estou lendo alguns livros que preciso ler para minhas pesquisas. Aos poucos, descubro a literatura brasileira e interesso-me por ela. A Bahia de todos os santos, de Jorge Amado, é a obra que leio no momento. Infelizmente, tenho em mãos uma tradução francesa, e não o original, em português.

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