A nova versão do meio como mensagem

Para o doutor em Comunicação Pedro Gilberto Gomes, transmitir mensagens para o maior número de pessoas, segundo certos autores e instituições, torna-se mais importante do que considerar o meio como um dispositivo tecnológico

Por: Anelise Zanoni

De acordo com Pedro Gilberto Gomes, quando Marsahll McLuhan “afirmou que o importante era saber que o meio é a mensagem, nos mostrou que o próprio meio cria uma ambiência”. Nesse sentido, o que muda o pensamento das pessoas é o simples fato de entregar-se a alguma tecnologia, como a televisão ou o computador. Além disso, o fato de vivermos em uma aldeia global é nominado por Gomes como um fenônemo de “glo(tri)balização”, uma tribalização mais ampla, como define.

Por fim, o entrevistado traça um paralelo entre as obras de McLuhan e o teólogo e paleontólogo jesuíta Teillhard de Chardin, que teria inspirado parte dos pensamentos do canadense. “Poderíamos pensar que estamos nos divertindo, nos informando ou tentando vender algo, mas estamos fazendo parte de um processo de evolução da humanidade, de um cérebro em comum”, afirma Chardin, segundo explica Gomes.

Pró-reitor acadêmico da Unisinos, Pedro Gilberto Gomes é graduado em Filosofia pela PUCRS, especialista em Teologia, mestre e doutor em Ciências da Comunicação. Atualmente é professor titular da Unisinos e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma instituição e membro da Equipe de Reflexão de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Confira abaixo a entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line.

IHU On-Line – Em sua opinião, qual a obra mais célebre de McLuhan? Por quê?

Pedro Gilberto Gomes – Uma das mais importantes obras de McLuhan é os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (Editora Cultrix, 1996), porque ele se debruça sobre cada um dos meios de comunicação, faz uma análise profunda. Nesta obra o autor introduz conceitos de meios quentes e frios. O prefácio também é muito interessante, os assuntos são descortinados.
Além desse livro, podemos reconhecer a Galáxia de Gutenberg  como uma obra importante que marcou sua virada. Ele analisa a importância da imprensa neste processo que ele chama de destribalização. A galáxia significa o ponto ótimo da destribalização. Nos meios de comunicação, ele reafirma o conceito de retribalização e de aldeia global.

Mesmo que a obra citada tenha marcado sua história, não pode ser considerada de fácil leitura. McLuhan é um professor de literatura inglesa e ele faz a construção do livro a partir dos grandes clássicos. Quem não conhece um pouco dos autores citados pode sentir-se confuso. Em minha opinião, toda a produção intelectual de McLuhan que surgiu depois e sua visão sobre a sociedade contemporânea tem como fundamento o livro Meios de Comunicação como Extensão do Homem.

IHU On-Line – Entre aos assuntos abordados por McLuhan está o fato de ele acreditar que a mudança de comportamento de uma pessoa está associada ao fato de assistir TV, e não ao seu conteúdo programático. Qual seu posicionamento sobre a realidade atual?

Pedro Gilberto Gomes – Hoje o meio não é tão fundamental como dispositivo tecnológico. A questão da preocupação com o conteúdo atualmente gira em torno da ideia de projetar uma mensagem para o maior número de pessoas. Para isso, usamos o jornal, a TV, o rádio, o computador, o Facebook. Essa é a visão atual de quem está centrado no conteúdo.
McLuhan, quando afirmou que o importante era saber que o meio é a mensagem, mostrou que o próprio meio cria uma ambiência. O que muda o pensamento das pessoas é o simples fato de ver televisão, e isso pode ser aplicado hoje.

Os pais, por exemplo, estão preocupados com aquilo que a juventude faz na internet e com as tecnologias. Isso é importante. Por outro lado, porém, o que é fundamental é compreender que o uso das redes sociais faz com que os jovens mudem seus estilos de socialização.

Acredito que este processo, que chamamos de midiatização , está desde cedo na criança. Há uma nova ambiência da sociedade, um novo modo de pensar e de se relacionar com as pessoas. Além disso, tendemos a pensar que as coisas devem seguir uma lógica cartesiana, com princípio, meio e fim. Hoje os jovens leem livros pelo fim, sem a lógica que imaginamos. Não há problema nessa apropriação, mas gerações mais velhas não conseguem fazer isso, mesmo quando há curiosidade.

Começar pelo final é como se faz na rede. Nos jogos eletrônicos, quando as crianças estão brincando, são mais intuitivas, rápidas e conseguem ganhar a partida. Buscam as tentativas, em vez da nossa lógica. Esse tipo de pensar é que está mudando, e McLuhan já falava numa inconsútil “túnica envolvendo a terra”. Mas, na época, ele só conhecida a TV; suas abordagens sobre os computadores fizeram parte de sua intuição. Aquilo que ele intuiu fez com que fosse considerado visionário. Hoje tudo está se realizando e com muito mais força.

IHU On-Line – O reordenamento das tribos nos faz pensar em uma aldeia global, diferente daquela descrita por McLuhan?

Pedro Gilberto Gomes – McLuhan descreve a história da humanidade a partir dos meios de comunicação. Ele afirma que, quando o homem começa a palavra oral, vai se reunir em tribos. Quando a escrita é inventada, ocorre uma destribalização, porque as pessoas podem se apropriar dela, não precisam mais de alguém para contar uma história. Esse ciclo vai até a Galáxia de Gutenberg, quando, segundo ele, ocorre a explosão total. Sendo assim, podemos pegar um livro impresso, levá-lo para casa e, se não entendermos seu conteúdo, voltamos às páginas e lemos novamente. É quando ocorre a superação da linguagem oral, é o rompimento com a tribo. Ao mesmo tempo, a imprensa no século XV promove o surgimento das línguas nacionais. Com o advento da tecnologia eletrônica, a partir da eletricidade, ocorre a retribalização. Nessa época, a sociedade e o mundo estão eletricamente contraídos numa nova retribalização, porque passamos a nos reunir novamente.

Mesmo assim, vivemos hoje em uma aldeia global. Chamo o fenômeno de glo(tri)balização. Fiz esta analogia porque temos a retribalização e a globalização, e para teorizar criamos o termo “glocal”, ou seja, a globalização local. A glo(tri)balização é uma tribalização, mas é mais ampla, porque partimos de uma tribalização, depois temos uma retribalização. É como se fosse uma única aldeia global. Hoje não existem barreiras. Sentamos ao computador e vencemos tempo e espaço. Posso falar com uma pessoa que está do outro lado do mundo. Instantaneamente as coisas acontecem na rede. Venço tudo.

IHU On-Line – O teólogo e filósofo Teilhard de Chardin falava em noogênese, uma integração do pensamento humano em uma rede inteligente, para explicar fenômenos da comunicação. Podemos comparar seus pensamentos com os de Marshall McLuhan?

Pedro Gilberto Gomes – Teilhard de Chardin  é um palentólogo e partidário da evolução, afirma que a evolução vai da pré-vida e, depois, a vida, culminando com o ser humano. Um processo que envolve a biogênese e a antropogênese. A evolução continua para uma noogênese, uma unidade do espírito, o que é salto para o além. Ele pensa além do pensamento cristão e diz que a evolução continua.
A expressão máxima da evolução da sociedade é em direção a uma espécie de um único cérebro. Ele diz que um cérebro humano é ligado por vários neurônios e trabalha independente, e a humanidade está caminhando para uma unidade cósmica em que todos os cérebros humanos individuais atuam como se fossem neurônios de um cérebro maior.

Ele acredita que a técnica não é só instrumento, mas é expressão dessa evolução do ser humano. McLuhan vai falar em meios como extensão do homem. Teillhard, por sua vez, afirma o mesmo, mas com outras palavras e com outra perspectiva. O teólogo fala dos meios da década de 1940 que ele conhecia. De acordo com ele, poderíamos pensar que estamos nos divertindo, nos informando ou tentando vender algo, mas estamos fazendo parte de um processo de evolução da humanidade, de um cérebro em comum. Teilhard falará de uma membrana que envolve a terra, que McLuhan define como “túnica inconsútil” que envolve tudo. A ideia é usada por McLuhan é de Teilhard.

A evolução para o teólogo e filósofo não é apenas linear. A possibilidade do fracasso existe, mas a evolução para Teilhard é irreversível. Ele acredita que tudo que sobe converge – para um ponto ômega, dentro da noogênese, visão de um mundo unificado, em torno de um grande sistema.

Grande parte daquilo que Teilhard escreveu na década de 1940 foi citada por pesquisadores como obra e pensamento de McLuhan. Provavelmente, o pesquisador canadense não o citou porque a visão de Teilhard era proibida. Ele não podia lecionar e teve de publicar obras importantes sobre o fenômeno humano.

IHU On-Line – Se Teilhard de Chardin tivesse mais liberdade para expressar suas ideias poderia ter sido considerado uma espécie de McLuhan?

Pedro Gilberto Gomes – É difícil fazer alguma previsão. Mas o certo é que, se analisarmos todas as obras dele, perceberemos que há coisas fantásticas sobre espiritualidade, biologia, entre outros. Ele foi um místico que sofreu muito. Passou mais de 20 anos da China, ajudou a descobrir o homem de Pequim e morreu nos Estados Unidos. Não podia lecionar, mas tinha boas intuições. Em 1940, quando a TV estava começando, ele teve intuições interessantes. Ele falava, inclusive, do computador. Só que, na época, as máquinas eram enormes e não tinham a potência dos computadores de mesa. Por isso ele vai falar da simulação tecnológica da consciência. McLuhan hoje teria outro tipo de salto, porque ele pensou a partir da eletricidade. Era a tecnologia analógica e hoje temos a tecnologia digital. O mundo é outro, tivemos um grande salto.

IHU On-Line – Como podemos pensar a cultura hoje diante da midiatização tão imediata?

Pedro Gilberto Gomes – Depende daquilo que entendemos por cultura. Hoje estamos vivendo uma cultura que pode ser tudo aquilo que a pessoa humana faz, diante da mediatização, da ambiência que a condiciona. Se entendermos cultura como algo culto, como teatro, música, pintura e escultura, eu diria que toda essa sociedade socializa bens culturais para o número maior de pessoas. Não existem mais coisas que estão interditadas às classes. Qualquer pessoa que tem computador pode fazer passeio cultural pelo Louvre, por exemplo, e ter cultura. O que mudou é a questão da perspectiva, da recepção.
De um lado, o que estamos vivendo é cultura. De outro lado, há os bens culturais: um momento em que era restrito a uma minoria, hoje existe possibilidade de socialização disso ou democratização da cultura graças às tecnologias. Hoje essa fronteira está cada vez mais tênue, porque está tudo imbricado. Nas vilas crianças têm celulares, podem acessar à internet, por exemplo.

IHU On-Line – O senhor faz alguma crítica às escolas de comunicação, tendo em vista a relação com os autores e as tecnologias?

Pedro Gilberto Gomes – As escolas de comunicação estão em outro patamar. No primeiro momento, as escolas do Brasil surgiram para formar e instrumentalizar, com uma visão dos meios de comunicação do ponto de vista de meros dispositivos tecnológicos. O jornalismo tinha influência da escola funcionalista norte-americana. Depois, principalmente com os postulados da Escola de Frankfurt, começaram a fazer a crítica da sociedade midiática, a partir da teoria crítica.

No momento em que começaram a criticar, as faculdades de comunicação passaram a usar textos até mesmo de forma esquizofrênica, porque o aluno se formava fazendo críticas ao meio e, quando ia para o mercado de trabalho, tinha o sonho de trabalhar em grandes empresas como a Rede Globo. Dentro dessa perspectiva da Escola de Frankfurt e dos postulados do funcionalismo, McLuhan se foi. Era identificado como um homem também dos mesmos pressupostos do funcionalismo.

Hoje, de certa maneira, podemos criticar McLuhan quando ele aplica a análise dos meios para uma Filosofia da História. Isto é, com a ideia de meio quente e frio, McLuhan dá um salto para uma teoria da história. Afirmava que podemos esquentar ou esfriar uma sociedade usando os meios de comunicação. Mas o salto não estava provado, e ele foi considerado um visionário. Quem tentou acompanhar seu pensamento percebe hoje que Mcluhan tinha razão.

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