Espiritualidade e elementos para uma teologia da comunicação em rede

“A Internet não é meio de evangelização, é um ambiente de vida”. Também é “um novo contexto existencial, não um lugar específico no qual se entra em algum momento para viver online e do qual se sai para entrar novamente na vida offline”.

A afirmação é de Antonio Spadaro, SJ, editor da revista italiana La CiviltàCattolica e professor de literatura da Universidade Gregoriana, em Roma. Formado em filosofia, teologia e comunicação social, é mestre em teologia pelaUniversidade Lateranense e doutor na mesma área pela Gregoriana.

Segundo Spadaro, o desafio para a Igreja não é o modo de usar bem a rede, mas “como viver bem o tempo da rede”. “A Rede coloca desafios muito significativos para a compreensão da fé cristã”, considerou.

O texto que segue é a conferência intitulada Espiritualidade e elementos para uma teologia da comunicação em rede, apresentada por Spadaro em julho no Seminário de Comunicação para os Bispos do Brasil (SECOBB), no Rio de Janeiro. A tradução é da IHU On-Line.

Eis o texto.

A Internet faz parte da nossa vida cotidiana. Se até alguns anos atrás, a Rede era ligada à imagem de alguma coisa técnica, que requeria competências específicas sofisticadas, hoje é um lugar de convivência para estar em contato com os amigos que moram longe, para ler as notícias, para comprar um livro ou reservar uma viagem, para compartilhar interesses e ideias. E isso também em movimento, graças àqueles que uma vez se chamavam “celulares” e que hoje são verdadeiros computadores de bolso.

Uma Rede ao alcance das mãos

A Internet é um espaço de experiência que cada vez mais está se tornando parte integrante, de maneira fluida, da vida cotidiana. É um novo contexto existencial, consequentemente, não é um “lugar” específico dentro do qual se entra em alguns momentos para viver on-line, e do qual se sai para retornar à vida off-line. A Rede permanece assim, ao alcance das mãos (também em sentido literal); ela começa a incidir sobre a capacidade de viver e de pensar. Da sua influência depende, em certa medida, a percepção de nós mesmos, dos outros e do mundo que nos circunda e daquilo que agora não conhecemos.

No fundo, o homem tem sempre buscado entender a realidade por intermédio da tecnologia. Pensemos como a fotografia e o cinema mudaram o modo de representar as coisas e os acontecimentos; o avião fez-nos compreender o mundo de modo diferente da carroça; a imprensa fez-nos compreender a cultura de maneira diversa. E assim por diante. A “tecnologia”, por conseguinte, não é uma coleção de objetos modernos e de ponta. Não é nem mesmo, como creem os mais céticos, uma forma de viver da ilusão de domínio sobre as forças da natureza em vista de uma vida feliz. Seria simplista considerá-la somente fruto de uma vontade de poder e dominação. Ela, escreve Bento XVI, na Caritas in Veritate, “é um fato profundamente humano, ligado à autonomia e à liberdade do homem”. Na técnica, exprime-se e confirma-se o domínio do espírito sobre a matéria [1], e, ao mesmo tempo, manifestam-se as aspirações do homem e as tensões de sua alma.

O advento da Internet foi, claramente, uma revolução. Todavia é uma revolução com sólidas raízes no passado: reproduz antigas formas de transmissão do saber e da vida em comum, exibe nostalgia, dá forma a desejos e valores tão antigos quanto o ser humano [2]. Refletindo sobre a Internet, requer não somente imaginar a perspectiva de futuro que oferece, mas considerar também os desejos e as expectativas que o homem sempre teve e às quais tenta responder, ou seja, conexão, relação, comunicação e conhecimento. E nós sabemos bem como sempre a Igreja tinha, no anúncio de uma mensagem e nas relações de comunhões, dois pilares fundamentais de seu ser.

A pergunta, neste ponto, surge espontânea: Se hoje a revolução digital modifica o modo de viver e de pensar, isso não terminará por abarcar também, de alguma maneira, a fé? Se a Rede entra no processo de formação da identidade pessoal e dos relacionamentos, não terá também um impacto sobre a identidade religiosa e espiritual dos homens de nosso tempo e sobre a própria consciência eclesiástica? Bento XVI, com sua mensagem para a 45.ª Jornada das Comunicações Sociais e o discurso à Plenária do Pontifício Concílio para as Comunicações, indicou um caminho de modo claro e determinado. Aqui estão as suas perguntas: “Quais desafios que o assim chamado ‘pensamento digital’ representa para a fé e para a teologia? Quais suas perguntas e suas solicitações?”.

Internet como «ambiente»

A Internet não é uma simples “ferramenta” de comunicação que se pode ou não usar, mas um “ambiente” cultural que determina um estilo de pensamento, contribuindo para definir também um modo particular de estimular a inteligência e de estreitar as relações, e, mesmo, um modo de habitar o mundo e de organizá-lo. Nesse sentido, a Rede não é um novo “meio” de evangelização, mas, em primeiro lugar, um contexto em que a fé é chamada a expressar-se não por uma mera “vontade de presença”, mas por uma conaturalidade do cristianismo com a vida dos homens. O desafio da Igreja não deve ser de que modo “usar” bem a Rede, como se acredita, mas é como “viver” bem na época da Rede. A Internet é uma realidade destinada a ser cada vez mais transparente e integrada em relação à vida, por assim dizer, “real”. Este é o verdadeiro desafio: aprender a ser wired, conectado, de maneira fluida, natural, ética e, até mesmo, espiritual; experimentar a Rede como um dos ambientes da vida.

É evidente, por conseguinte, que a Internet, com todas as suas inovações das antigas raízes, coloque para a Igreja uma série de interrogações relevantes de ordem educativa e pastoral. Todavia há alguns pontos críticos sobre a própria compreensão da fé e da Igreja. Tentarei estabelecer alguns deles para iniciar uma discussão à luz das aparentes incompatibilidades, bem como da evidente conaturalidade.

Como muda a busca por Deus

A primeira questão que desejo levantar é de ordem antropológica. A “navegação” na web é hoje uma forma comum de conhecimento. Atualmente, acontece sempre mais frequentemente que, no momento em que se tem a necessidade de uma informação, consulte-se a Rede para obter uma resposta por intermédio de um motor de busca como GoogleBingou outro ainda. A Internet parece ser o lugar das respostas. Essas, no entanto, raramente são unívocas: a resposta é uma coleção de links que remetem a textos, a imagens e a vídeo. Cada pesquisa pode implicar uma exploração de territórios diferentes e complexos, dando até a impressão de uma certa exaustividade. Que fé nós encontramos nesse espaço antropológico a que chamamos de web?

Digitando em um motor de busca a palavra God ou até mesmo religion, spirituality, obtemos uma lista de centenas de milhões de páginas. Na Rede, observa-se um crescimento de necessidade religiosa que a “tradição” parece enfrentar dificuldades para satisfazer. O homem, na busca de Deus, lança-se hoje em uma navegação. Quais são as consequências? Pode-se cair na ilusão de que o sacro ou o religioso estão ao alcance de um clique no mouse. A Rede, exatamente graças ao fato de que pode conter tudo, pode ser facilmente comparada a uma espécie de grande supermercado da religião. Iludimo-nos, por conseguinte, pensando que o sacro permanece “à disposição” de um “consumidor” para o momento da necessidade. O Evangelho aparece apenas como uma notícia entre muitas outras.

O Evangelho, todavia, “não é uma informação entre as outras – afirmava, em 2002, o então Cardeal Ratzinger –, uma linha, sobre a mesa, perto de outra”, mas é “a chave, uma mensagem de natureza totalmente diferente do monte de informações com que nos inundam dia após dia”. Continuava o atual Pontífice: “Se o Evangelho aparece apenas como uma notícia entre muitas, ele pode, talvez, ser descartado em favor de outras mensagens mais importantes. Mas como é que a comunicação, a que nós chamamos de Evangelho, faz para entenderem que essa é exatamente uma forma totalmente diferente de informação – no nosso uso da linguagem, mas preferivelmente num “desempenho”, num processo vital por meio do qual apenas o instrumento da existência pode encontrar o seu tom adequado?” [3].

O desafio que temos daqui para frente é sério, porque assinala a demarcação entre a fé como “uma mercadoria” a ser vendida de modo sedutor e a fé como ato de inteligência do homem que, motivado por Deus, dá a Ele livremente sua própria aprovação. É, portanto, necessário hoje, considerar que somos realmente capazes de escapar sempre, e de alguma maneira, à lógica do “motor de busca” e que o “googleamento” da fé é impossível.

Recentemente, o Google introduziu uma nova funcionalidade chamada de Instant, que permite obter os resultados da pesquisa já no momento em que ela é efetuada. Se tivermos habilitada a função Google Instant e digitarmos a palavraGod, descobriremos que, no “mercado” das respostas, Deus, claramente, não é mais “o ser do qual nada maior pode ser pensado”, segundo a definição de Santo Anselmo. De fato, apenas digitamos as letras “g”, “o” e “d”, e as sugestões automáticas em língua inglesa são, na ordem: “deuses do Metal”, e depois “deus da guerra”, “Godot” e “godzilla”, e esses são, respectivamente: um videogame, um festival de música heavy metal, a mais famosa obra teatral de Samuel Beckett e um monstro do cinema japonês. Deus, como tal (God), não está contido no campo das respostas possíveis. A busca por Deus na época do Google Instant é difícil…

Podemos confrontar a lógica do motor de busca instantânea com a dos motores “semânticos” e a sua lógica de funcionamento diferente, baseada no reconhecimento de uma pergunta específica que deve ser bem colocada. Um exemplo é oferecido por Wolfram.

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