Evolução e o futuro infinitamente expansivo

Para Teilhard, matéria e espírito são termos que se referem propriamente não a substâncias distintas, mas a tendências na evolução do Universo, defende John Haught

Por: Graziela Wolfart e Márcia Junges
Tradução de Ana Paula Penkala

“Ainda hoje não há melhor lugar para a teologia cristã para iniciar uma conversa com Darwin sobre Deus do que olhando para síntese da evolução e da fé por Teilhard”. Essa é a compreensão do teólogo norte-americano John Haught, que aceitou conceder a entrevista que segue à IHU On-Line, por e-mail, sobre Teilhard de Chardin. Haught defende que, “para Teilhard, religião é a forma pela qual o Universo, agora que atingiu o nível de autoconsciência, continua a sua eterna busca por seu derradeiro Centro e Meta. Portanto, a religião, em vez de ser uma oposição à evolução, é essencial para o seu futuro”. John Haught ainda acrescenta que “teologicamente falando, nos termos de Teilhard, o que está realmente acontecendo no cosmos é que Deus está se tornando cada vez mais encarnado (…) e o mundo está explodindo ‘para cima de Deus’. Para Teilhard, a evolução está ocorrendo, fundamentalmente, não simplesmente por acaso e por determinismo cego (…), mas porque Deus se aproxima do mundo e o convida a novos níveis de existência, respeitando sua espontaneidade ao mesmo tempo”.

Haught é professor de Teologia da Universidade de Georgetown, Estados Unidos, e membro sênior do Woodstock Theological Center. Graduado em Filosofia pela St. Mary’s University, de Baltimore, é mestre e PhD. pela Catolic University of America, Washington, com a tese Foundations of the hermeneutics of eschatology. É autor de inúmeros livros, dentre os quais destacamos Deeper than Darwin: the prospect for religion in the age of evolution (Boulder, Colo: Westview Press, 2003); Purpose, evolution and the meaning of life (Ontario: Pandora Press, 2004); Is nature enough: meaning and truth in the age of science (Cambridge: Cambridge University Press, 2006) e Christianity and science (Maryknoll: Orbis Press, 2007). Em português, leia Deus após Darwin. Uma teologia evolucionista (Rio de Janeiro: José Olympio, 2002).

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Qual é a atualidade de Teilhard de Chardin para os campos da ciência e da fé?

John Haught – Teilhard trouxe uma nova e profunda contribuição ao estudo da Natureza. Ele colocou o que chamamos de mente ou “reflexão” de volta no Universo, considerando que muito do pensamento moderno assumiu que mente e experiência subjetiva não são realmente parte do mundo natural. Considerando a relação da religião com a ciência, as vantagens que vêm de colocar a mente num continuum com a Natureza não podem ser exageradas. Uma vez que a mente retornou ao seu lugar apropriado na Natureza, dois dos maiores desafios que a religião enfrenta numa era da ciência começam a se dissolver. O primeiro deles é o desafio à religião, colocado pelo mecanismo-materialismo, uma visão das coisas que Teilhard expôs, na melhor das hipóteses, como uma abstração útil. O segundo é a questão de como pensar a ação divina no mundo da Natureza. Ao reconhecer que a subjetividade humana é um contínuo com toda a história do Universo, Teilhard percebeu que não há uma clara separação de “matéria” do domínio da mente ou espírito. Assim, a ação de Deus (a quem as religiões identificam como o epíteto do “espírito”) no mundo físico é possível porque as “coisas” do Universo nunca foram separáveis da consciência e do espírito. Não existe tal coisa como um domínio essencialmente negligente de matéria inerentemente fechado à influência de Deus.

Para Teilhard, matéria e espírito são termos que se referem propriamente não a substâncias distintas, mas a tendências na evolução do Universo. “Matéria” designa a inclinação das entidades de escorregarem para a condição de multiplicidade e dispersão que constituem as primeiras etapas do processo cósmico, ao passo que o “espírito” representa a propensão dos seres a convergir para a unidade complexa e diferenciada em torno de um centro ou uma meta. Essa meta é, em última instância, o que os cristãos chamam de Deus. Deus age no universo, trazendo unidade à multiplicidade representada pelo termo “matéria”. Essa convergência para Deus é o que está acontecendo nas profundezas da evolução.

IHU On-Line – De que forma a obra de Chardin compatibiliza a fé cristã e a ciência moderna?

John Haught – Teilhard pensa sobre o Deus da evolução não como “acima”, mas como “à frente”. Deus vem ao mundo vindo do futuro. Apenas pela mudança para uma perspectiva futurista, cheia de esperança, o pensamento cristão pode ligar o Deus promissor da fé bíblica com a ciência e, especialmente, à nova imagem da vida por Darwin. O Universo, como implica a evolução, ainda está por ser. É um trabalho em progresso, e, por enquanto, ele permanece inacabado. Ele continua a ser traçado para o futuro pelo poder atrativo de um Deus que cria o mundo oferecendo-lhe novas possibilidades de tornar-se mais – ou seja, oportunidades para modos de existência mais intensos e valorosos. Como cientista, Teilhard aceita a evolução darwinista, mas purgada de qualquer interpretação materialista.

A história evolutiva em que a totalidade da criação sofre uma transformação de modos de existência mais simples para os mais complexos carrega um significado profundo de que a fé cristã pode iluminar e, assim, inspirar a fé cristã no nosso tempo. O Deus de evolução cria continuamente um novo mundo não por empurrar as coisas do passado para frente, mas desenhando o mundo em direção a um novo futuro dali em diante. O futuro é a principal morada de Deus. Apesar de Deus abraçar presente e passado, Ele é mais poderosamente eficaz agora abrindo todas as coisas para um futuro infinitamente rico. Deus está intimamente envolvido em cada momento presente exatamente por abrir esse momento para um novo futuro. O mundo repousa sobre esse futuro, Teilhard diz, como o seu “único apoio”. Aqui, as reflexões de Teilhard permanecem muito próximas ao entendimento bíblico de Deus como aquele que promete. Ele acrescenta, porém, que na era da ciência, temos que perceber que a promessa de Deus não é apenas para Israel, a Igreja e a história humana, mas também para todo o Universo. A derradeira explicação da evolução é a vinda (ou advento) de Deus para o mundo de um futuro infinitamente expansivo.

IHU On-Line – Quais das ideias de Teilhard de Chardin são as mais instigantes e visionárias em ambos os pontos de vista?

John Haught – Podemos resumir as ideias mais importantes e visionárias de Teilhard assim:

1) O universo inteiro está em evolução. Teilhard foi um dos primeiros cientistas no século passado a reconhecer que todo o cosmos, e não apenas as fases da vida e da existência humana, é uma história importante. Sobre a evolução da Terra já trouxe a esfera da matéria (geosfera) e da vida (a biosfera). Agora se está criando a esfera da mente/espírito (a noosfera).

2) Existe uma clara orientação para a história cósmica. Apesar da óbvia curva, o caráter de “arbusto ramificado” da evolução da vida, o universo como um todo claramente se moveu na direção da complexidade organizada crescente. O processo já passou pelas fases pré-atômica, atômica, molecular, unicelular, multicelular, dos vertebrados, dos primatas e dos humanos. Durante essa viagem, manifestou uma intensificação mensurável de complexidade organizada. (Quem pode negar que o cérebro humano é infinitamente mais complexo em sua organização que um átomo ou célula?) Podemos apenas cogitar aonde a evolução cósmica irá agora tomar alguma tendência futura para complexificar. Mas já vemos a complexificação começando a tomar espaço em escala global. Tecnologias emergentes, redes de comunicação, sistemas educativos e econômicos etc. estão provocando um novo tipo de complexidade organizacional na Terra, a noosfera. Teilhard não viveu para ver a Internet, mas as suas ideias claramente anteciparam esse tipo de desenvolvimento.

3) Durante o curso da evolução, a consciência continua crescendo em proporção direta ao aumento da complexidade física organizada. Teilhard chama isso de “lei da Complexidade-Consciência”. A grosso modo, conforme a matéria se tornou mais complexa em sua organização, a percepção [conhecimento] e, eventualmente (especialmente em nós, humanos) autopercepção [autoconhecimento] surgiu. E não há razão para suspeitar que a lei da Complexidade-Consciência, tendo atingido o nível da consciência humana, vá agora ser suspensa.

IHU On-Line – No que consiste a evolução na concepção de Chardin? Há muitas diferenças em relação a Darwin? Quais seriam essas diferenças?

John Haught – Teilhard aceita a visão darwinista de que, a partir de uma perspectiva científica convencional, a evolução envolve o jogo de azar e o mecanismo de seleção natural cega operando sobre um enorme espaço de tempo. Mas em um nível mais profundo, algo mais importante está acontecendo, algo que a biologia darwiniana ignora. Teologicamente falando, nos termos de Teilhard, o que está realmente acontecendo no cosmos é que Deus está se tornando cada vez mais encarnado (um ponto testemunhado especialmente pelos ensinamentos cristológicos), e o mundo está explodindo “para cima de Deus”. Para Teilhard, a evolução está ocorrendo, fundamentalmente, não simplesmente por acaso e por determinismo cego – embora isso possa ser tudo o que conseguimos ver, em um nível científico -, mas porque Deus se aproxima do mundo e o convida a novos níveis de existência, respeitando sua espontaneidade ao mesmo tempo. Diferentemente de Darwin e evolucionistas materialistas contemporâneos, Teilhard não podia separar evolução de um princípio divino de criatividade e cuidado que permite a novidade emergente e garante a meritoriedade do devir do mundo. Em última análise, a vida, o esforço humano e o processo cósmico seriam um absurdo, separados de um eterno princípio de criatividade e cuidado que inspira o processo cósmico e salva o mundo do absoluto perecimento. Algo grande está em vigor no cosmos só porque este está intimamente relacionado com a vida de Deus. Para Teilhard, o cosmos é a matriz da complexidade emergente, da vida, da consciência, da personalidade e do espírito. Esses resultados são possíveis, porém, em última instância, por causa de uma influência divina operativa em um nível de realidade profundo demais para a ciência comum entender. Teilhard ainda permite que Deus seja, em certo sentido, alterado por aquilo que acontece no mundo, sem que isso diminua, de forma alguma, a perfeição divina. Ele concorda com a tradição teológica que diz que Deus é auto-suficiente, mas ele propõe que “o Universo contribui com algo que é absolutamente necessário [para Deus]”.

IHU On-Line – Quais são as principais proposições darwinianas que influenciaram Chardin?

John Haught – A receita para a evolução darwinista é constituída por três componentes principais: acidentes, seleção natural e tempo profundo. Teologicamente, Teilhard está completamente confortável, realmente entusiasmado, com esta explicação darwinista dos resultados evolutivos. Ou o próprio Darwin teria aceitado que o acolhimento religioso da evolução por Teilhard é duvidoso. É importante lembrar, no entanto, que o Deus que Darwin eventualmente renegou foi o muito limitado criador divino de William Paley  e da teologia natural do século XIX, não o Deus bíblico do futuro no qual Teilhard acreditava. Teilhard estava muito impressionado com a notável consonância entre a evolução e o sentido bíblico do Deus que está chegando. O quadro geral da sua teologia da evolução é uma fé cristã cheia de esperança, especialmente como expressa nas cartas de São Paulo. Essa visão religiosa é compatível com a ciência e a biologia evolutiva contemporânea de Darwin, embora ela olhe para a vida de uma outra perspectiva que não a da ciência. As ideias de Teilhard realmente pareciam demasiado darwinianas para o Vaticano enquanto ele estava vivo. Ele não obteve permissão da Igreja para publicar o Fenômeno Humano e muitos outros escritos sobre fé e evolução, mas uma reação defensiva da evolução ainda prevalece no catolicismo oficial durante a primeira metade do século XX. Consequentemente, as ideias de Teilhard sobre a evolução e o cristianismo pareciam demasiado ousadas para os seus censores eclesiásticos. Funcionários da Igreja ficaram especialmente preocupados que um entendimento evolucionário do surgimento da humanidade prejudicaria os ensinamentos cristãos sobre o pecado original. Hoje, a sombra da desconfiança sob a qual alguns católicos eclesiásticos anteriormente colocaram Teilhard quase desapareceu, exceto entre os devotos mais reacionários da espiritualidade pré-Vaticano II. Na verdade, os documentos promulgados pelo Concílio Vaticano II claramente contêm o carimbo da teologia evolucionária dos geólogos jesuítas. Em minha opinião, portanto, ainda hoje não há melhor lugar para a teologia cristã para iniciar uma conversa com Darwin sobre Deus do que olhando para síntese da evolução e da fé por Teilhard. Aqui o que sobressai é, em primeiro lugar, a recusa de Teilhard de proteger o pensamento cristão de um contato próximo com a ciência evolutiva e, em segundo lugar, o seu sentido da necessidade de expandir e aprofundar a nossa compreensão de Deus em harmonia com a descoberta da ciência do drama da vida e do crescimento da imagem do cosmos pela astronomia, uma impressão que aumentou a trancos e barrancos desde a época de Darwin.

Mentes teologicamente tímidas ainda consideram a ampliação do Universo por Teilhard, e seu correspondente alargamento do conceito de Deus, como quase heréticos, mas Teilhard não é mais inovador e controverso do que muitos outros pensadores cristãos foram em suas próprias épocas. Por exemplo, Justino,  Orígenes,  Irineu de Lyon,  Gregório de Nissa,  Agostinho de Hipona,  Tomás de Aquino  e muitos outros foram todos bastante ousados em suas próprias tentativas de dar sentido ao cristianismo em suas próprias definições culturais e históricas. Para Teilhard, o contexto intelectual de qualquer teologia crível hoje é moldado principalmente pela ciência e, sobretudo, pela evolução. Então o que é necessário teologicamente é uma profunda reinterpretação do ensino cristão sobre Deus, Cristo, criação, encarnação, redenção e escatologia em sintonia com o desvelamento de Darwin da longa evolução da vida e divulgação da cosmologia contemporânea da contínua expansão dos céus. O primeiro passo para a necessária revisão teológica, porém, é distinguir a ciência evolutiva da ciência do materialismo filosófico que aleijou o pensamento-mundo [mundo pensado por] de tantos cientistas darwinistas desde muito antes da época de Teilhard e que persiste hoje. Teilhard está convencido de que a evolução não é redutível a uma reorganização dos átomos ao longo do tempo, e ele teria rejeitado a alegação de Richard Dawkins  de que, no fundo, a evolução é redutível a um rio de genes flutuando cegamente de uma geração para a seguinte. Embora Teilhard aceite o fato de que átomos estão sendo embaralhados e genes estão fluindo em evolução, ele está convencido de que algo muito mais significativo também está ocorrendo em um nível mais profundo da evolução, um grande drama que aqueles que foram iniciados apenas no mundo do materialismo científico simplesmente não serão capazes de ver.

IHU On-Line – Há influências de Chardin no conceito que o senhor desenvolve de “teologia evolucionista”?

John Haught – Encontrei, pela primeira vez, as ideias de Teilhard de Chardin no início dos meus vinte anos, logo após o Concílio Vaticano II, cujo avanço nos documentos as próprias ideias do famoso geólogo jesuíta ajudaram a moldar. Inúmeras pessoas no mundo todo se animaram com suas ideias na época do Concílio, e fui cativado também. Posso atribuir minha decisão de me tornar teólogo e, mais tarde, meu entusiasmo por tomar parte nas discussões da ciência e religião contemporâneas em grande medida a este aventuroso pensador cientista e religioso. Com o passar dos anos, a inadequação de qualquer grande pensador se tornou mais visível, e Teilhard não é exceção. Mas que ele tem permanente relevância em várias áreas, não tenho dúvidas. O mais importante para mim é que Teilhard busca substituir a visão de mundo materialista em que muitos darwinistas acreditam pelo que poderia ser chamado de uma visão de mundo “futurista” no qual o que é “realmente real” vem para o campo da nossa visão apenas enquanto olhamos para frente, em direção a uma unificação dos elementos cósmicos dispersos no futuro de Deus. Essa antiga compreensão cristã da criação como se movendo em direção à futura renovação muitas vezes se perdeu durante os longos séculos da teologia platonicamente moldada, que pinta Deus como uma eterna presença, como Ser imutável, vertical e hierarquicamente acima e fora do mundo do devir. Depois de Darwin, no entanto, o mundo criado parece mais uma casa numa acepção bíblica, uma sintonia com a intuição abraâmica e do início do cristianismo que a derradeira realidade se torna no presente como um futuro sempre se renovando. O sentido teilhardiano de que o Universo repousa sobre o futuro “como o seu único apoio” é fundamental para a minha própria teologia da evolução.

IHU On-Line – Para Chardin, Deus faz as coisas fazerem a si mesmas. Seria esse o pilar fundamental da criação contínua?

John Haught – A criação pode ocorrer de três formas. Existe criação original, claro, mas há também criação contínua e nova criação. Criação contínua significa que Deus dá existência permanente ao mundo. E a nova criação, que tradicionalmente aponta em direção à re-criação do mundo no fim dos tempos, implica que as formas sem precedentes de existência podem continuar aparecendo no decorrer da história natural. Portanto, a ideia de que a Natureza possa dar origem a novos tipos de ser durante a passagem do tempo jamais deveria ter sido perturbadora para os cristãos. A ideia de que o mundo pode mudar dramaticamente, e que a vida de algum modo “evolui”, é antiga. Santo Agostinho (354-430) propôs que os novos tipos de vida passam a existir durante o curso do tempo terrestre a partir de “princípios sementes” semeados pelo Criador no início. Hoje, é normal a teologia cristã reconhecer que a criação de novos seres ainda está acontecendo. Deus não é apenas aquele que inicialmente cria e, posteriormente, sustenta a existência do mundo, mas também “aquele que faz novas todas as coisas” (Isaías 42:9; Apocalipse 21:5). Uma vez que a criação ainda não está concluída, um considerável espaço doutrinal se mantém na tradição teológica para acomodar as provas científicas da “descendência com modificação” da vida por meio da seleção natural. A maioria dos cristãos educados cientificamente não enxerga qualquer conflito entre a ideia darwinista de ascendência comum e a doutrina teológica de contínua e nova criação. Os crentes não têm de escolher entre ascendência evolutiva e Deus. Na verdade, a ideia de ascendência comum como tal não precisa implicar qualquer diminuição no poder de Deus para criar. Pense no Criador como trazendo à existência um mundo que pode, por sua vez, dar origem espontaneamente à nova vida e conveniente diversidade e, eventualmente, aos seres humanos. A evolução, nesse caso, é o desdobramento do engenho do Deus-dotado do mundo original. O divino Criador de um tão autocriativo mundo é muito mais impressionante – e, por conseguinte, digno da reverência e gratidão humanas – do que é um “designer” que molda e microadministra tudo diretamente. O ponto não é que Deus faz as coisas, mas que “Deus faz as coisas se fazerem”, como Charles Kingsley,  Pierre Teilhard de Chardin, Frederick e outros pensadores religiosos colocaram. A teologia não tem geralmente se oposto à crença de que a criação propriamente dita pode continuar criando, no modo de causalidade secundária. Mesmo no Gênesis, Deus diz: “Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie. E assim se fez.” (Gênesis 1:24). Deus é a causa subjacente, mas Ele trabalha por meio da legalidade e espontaneidade da Natureza.

IHU On-Line – Qual é o espaço da ética nesse mundo de criação contínua?

John Haught – A fim de agir de forma responsável, não é suficiente saber só o que está acontecendo localmente, mas também no Universo como um todo. Analisar cuidadosamente o que foi acontecendo no largo Universo antes do surgimento dos humanos pode fornecer, pelo menos, as diretrizes gerais para o que nós deveríamos estar fazendo agora eticamente. O homem moderno, infelizmente, tem tentado ser ético sem procurar mais profundamente por orientação do que nas esferas histórica, social e econômica. Mesmo crentes religiosos têm pensado em virtude sem considerar muito o contexto cósmico de suas vidas. Infelizmente, para a espiritualidade e teologia ocidentais, o cosmos ainda funciona predominantemente como um fundo neutro para a ação humana e não como uma fonte profunda de incentivo ético e insight. Com os olhos fixos sobre as descobertas da ciência, no entanto, Teilhard desenvolveu uma visão da realidade na qual ver o que está acontecendo no Universo é essencial para compreendermos o que temos de fazer. Amparado pelo sentido de um Universo onde algo importante já havia se tornado antes da vinda dos homens, Teilhard percebeu que a nossa própria ação moral pode ser interpretada realisticamente como contribuindo para o maior empreendimento cósmico. Uma convicção cientificamente embasada de que nossas próprias vidas e trabalhos estão sendo tecidos em um tear criativo que é do âmbito cósmico pode dar o necessário propósito e entusiasmo para as nossas vidas e despertar a nossa aspiração moral. A evolução nos ensinou que o Universo lutou para tornar-se mais ao longo da sua longa história. E tornar-se mais significa tornar-se mais vivo, mais consciente e mais liberto do determinismo cego. Teilhard refere-se a esse processo como o surgimento do espírito. Assim, nosso dever ético é participar e promover esse projeto ainda longe de terminar. A base inicial da existência ética é que já estamos imersos em um fluxo cósmico de consciência e espírito emergentes. O Universo ainda está dando à luz consciência e espírito, e nossa vocação é contribuir para esse processo.

IHU On-Line – Que elementos a obra de Chardin fornece para repensarmos a eticidade na relação com o Outro?

John Haught – Se você seguir o caminho da evolução, você ainda tem que fazer uma escolha entre se pretende “evoluir” por si próprio ou em comunhão com outros. Com a ênfase no individualismo dos tempos modernos, é uma tentação muito forte fazê-lo sozinho. Mas individualismo é um beco sem saída evolutivo e ético. É somente por meio do caminho de comunhão, de entrar em cooperação com outros, que a evolução avança em direção a algo de mais valor e importância. E você não precisa ter medo de que essa comunhão vá roubá-lo de sua individualidade. Na verdade, você está indo encontrar o seu verdadeiro e único indivíduo apenas por se envolver com outros em “uma grande esperança mantida em comum”. Para Teilhard, um princípio fundamental de evolução e de toda a realidade é que a verdadeira união diferencia. A verdadeira união não homogeneíza ou reduz as coisas à uniformidade. A verdadeira união paradoxalmente permite que o outro seja, e permite que os componentes de qualquer unidade mais abrangente alcancem sua liberdade, sua individualidade, a sua independência precisamente na sua relação com os outros. Como sabemos isso? Sabemos isso porque, se olharmos para a forma como a evolução funcionou no passado, podemos ver que passou de um nível para o outro apenas passando recorrentemente por três frases: a fase de divergência, seguida pela convergência, seguida pela emergência. Eu não posso entrar em detalhes com cada fase aqui, mas deixe-me exemplificar a questão, analisando a evolução das células vivas. Quando as células individuais (formas unicelulares de vida) começaram a habitar este Planeta, elas levaram – como sabemos agora – alguns bilhões de anos simplesmente se espalhando por toda a superfície do globo. Essa foi a fase de divergência. Mas, em um determinado ponto, no passado, um limiar crítico foi ultrapassado e, em seguida, a fase da convergência começou a ocorrer: as células começaram a coagular, primeiro em associações desconectadas, mas depois em cada vez mais fortemente integradas formas de comunhão. Essa foi a fase de convergência. Finalmente, num ponto de convergência muito intensa, o aparecimento de algo novo, ou seja, os multicelulares, organismos autointegrados, ocorreram. Então, o modelo, mais uma vez, é este: divergência, seguida de convergência, seguida por emergência. E a mesma sequência se repetiu nas outras fases da complexificação da matéria. Agora vamos passar para a última fase dominante na evolução, o período da história cósmica quando o homem entrou em cena. Nossa espécie gasta mais do que os primeiros 100.000 anos de sua existência neste Planeta espalhando-se ou divergindo-se em padrões tribais de existência. Então, entre cerca de cinco a oito mil anos atrás, em locais como a bacia do Nilo e Mesopotâmia, indivíduos humanos e tribos começaram a convergir mais fortemente um para o outro, primeiro nas antigas cidade-estado, mas mais recentemente nos estados-nação, e mais recentemente ainda no que Teilhard chamou planetização e a noosfera. Se olharmos para o que tem acontecido recentemente no campo da política, economia e tecnologia, especialmente nas comunicações, parecerá que a Terra está passando por um processo muito rápido de convergência agora. Em escala planetária, estamos neste momento passando o limiar da divergência para a convergência – de uma maneira ambígua e incerta. Agora temos de imaginar como a vida na Terra será, psiquicamente falando, Teilhard diz, um milhão de anos a partir de agora, tendo em mente que um milhão de anos não é muito tempo em termos de evolução. Então, não devemos desistir de nós mesmos. Somos ainda muito novos para a evolução. É mesmo possível que algo surpreendentemente novo esteja nascendo no Universo através de nós? O que Teilhard viu acontecer agora em nosso Planeta o lembrou do que tinha ocorrido há muito tempo na evolução, quando o cérebro primata tornou-se suficientemente complexo para que o salto para o “pensamento” acontecesse. A lei de complexidade – consciência – em que a consciência e, portanto, a intensidade da existência corresponde ao grau de complexidade física organizada – permeia tudo o que Teilhard escreve. Além disso, como um devoto cristão, Teilhard tinha lido as cartas de São Paulo com muito cuidado. Ele levou a sério a percepção de Paulo de que todo o Universo desembocou para a nova criação, que o corpo de Cristo foi formado de muitos membros e que este corpo foi estendido por todo o Universo. Essa visão paulina foi uma que Teilhard queria transplantar para os conceitos de evolução do século XX.

IHU On-Line – Como podemos compreender o conceito de noosfera na sociedade globalizada e digital que vivemos?

John Haught – Agora podemos ver que um processo de complexificação como esse da evolução do cérebro está ocorrendo em escala planetária: a Terra está tecendo em torno de si mesma algo análogo ao cérebro. Se o paralelismo é instrutivo, por que não deveríamos antecipar que algo importante está em vigor sobre esta Terra e possivelmente noutros locais do Universo? Algo novo e inimaginavelmente complexo ainda está sendo criado. E não temos quase uma obrigação ética de participar nessa aventura em curso da criação? Mas agora vamos levar estas reflexões ainda mais adiante e refletir sobre a possibilidade de vida inteligente noutros locais do Universo. Acho que se estivesse vivo hoje, Teilhard provavelmente iria prestar ainda mais atenção nesse tema do que as poucas observações dispersas que fez sobre isso. Creio que o pensamento de Teilhard pode ser estendido numa era de SETI (The Search for Extraterrestrial Intelligence – A busca por inteligência extraterrestre) da seguinte forma: comecemos com aquilo que sabemos. Sabemos que, por todo o Universo, tem havido um aumento gradual na complexidade física organizada, começando com a matéria pré-atômica, passando depois para os átomos, moléculas e os compostos de carbono que compõem o equivalente a 40% da poeira interestelar. Sabemos, sem dúvida, que o processo de complexificação tem avançado pelo menos até aqui por todo o cosmos. Sabemos também que, pelo menos na Terra, o processo de complexificação da matéria foi ainda mais longe. Das moléculas orgânicas surgiram células, organismos, animais vertebrados, primatas e humanos. E agora a noosfera começa a assumir uma forma ainda mais complexa, em escala planetária. Quem sabe o que mais pode surgir além disso? Agora, de acordo com Teilhard, sabemos também que, em proporção direta ao aumento da complexidade física organizada, ao menos em nosso Planeta, tem surgido um aumento correspondente na consciência. Então, já não temos uma estrutura em termos daquilo que poderíamos fazer de sentido científico e teológico da vida inteligente extraterrestre se nós nunca a encontramos? Teilhard experimentava apenas timidamente essas ideias durante a sua vida. Mas, na base da sua compreensão geral da evolução, não é possível que, se calhar de a inteligência extraterrestre ser abundante, então algo como noosferas extraterrestres também possam estar em processo de criação? Se esse acaba por ser o caso, então essas noosferas individuais tornar-se-iam as unidades fundamentais de uma inimaginável extensão da consciência cósmica. Nós ainda não sabemos como isso seria possível, uma vez que as noosferas teriam que se comunicar uma com a outra se uma nova fase de convergência está para ocorrer. E, sem dúvida, essas especulações irão soar demasiado ousadas [selvagens] para a maioria das pessoas. No entanto, pelo menos, Teilhard fornece um quadro inteligível para pensar sobre essas possibilidades no contexto de um Universo premeditado.

Na evolução, naturalmente, as coisas tomam milhões e milhões de anos, mas a formação da noosfera até então é uma questão de apenas milhares de anos e, na sua última fase, apenas os últimos 200 anos. Portanto, não devemos supor que a busca do Universo por mais e mais complexas evoluções físicas está em seu fim. Talvez, para tudo o que sabemos, a criação evolutiva ainda está em sua aurora cósmica. A Terra, tendo agora atingido o nível da noosfera, parece estar indo na direção de uma consciência global ou planetária. A Terra e o Universo como um todo estão avançando em direção a um novo e maior centro. Teilhard abstratamente se refere a este centro (ou objetivo) como “Omega”, a última letra do alfabeto grego. Teologicamente falando, o Omega é Deus. Agora que o Universo atingiu o estágio de noosfera, qual é a forma que toma a procura pelo Omega? Ela assume muitas formas, mas a mais característica maneira em que a busca continua é a da religião. Religião se encaixa no Universo evolucionário como o caminho pelo qual a vida consciente exerce a busca do Omega. Todas as religiões têm a tendência de procurar uma maior realidade ou um supercentro, como chamou Teihard. E, naturalmente, para Teilhard – que era um cristão – o nome deste supercentro é Deus. Teilhard entendia Deus como tendo-se tornado encarnado em Cristo, e ele compreendeu Cristo como o objetivo físico da evolução cósmica. Mas, em todas as religiões, e não apenas no cristianismo, a busca de um supercentro já se dá desde o tempo das primeiras manifestações de anseio espiritual. Consequentemente, devemos olhar para a religião não só teologicamente, historicamente, psicológica ou sociologicamente, mas também cosmologicamente. Para Teilhard, religião é a forma pela qual o Universo, agora que atingiu o nível de autoconsciência, continua a sua eterna busca por seu derradeiro Centro e Meta. Portanto, a religião, em vez de ser uma oposição à evolução, é essencial para o seu futuro.

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