Fé e ciência: um diálogo em construção

Segundo George Coyne, Chardin é reconhecido por todos os cientistas como um dos maiores pensadores científicos de todos os tempos

Por: Márcia Junges e Patrícia Fachin
Tradução de Ana Paula Penkala

Teilhard de Chardin, ao estabelecer o diálogo entre fé e ciência, “viu que somos co-criadores do Universo, tão desejado por Deus, que temos uma séria responsabilidade para com toda a criação divina e que a nossa própria derradeira salvação é intimamente ligada à forma como nós amamos esse Universo”. A posição é defendida pelo jesuíta, matemático e astrônomo norte-americano George Coyne, em entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Segundo ele, a evolução do Universo é contínua e ainda está em curso. “O Universo fértil deu à luz um conteúdo biológico para o Universo que os neodarwinistas da evolução estudam mais detalhadamente, mas sempre tendo como pano de fundo o Universo evolutivo em uma escala cosmológica”, completa.

Dedicado também aos estudos do darwinismo, Coyne diz ainda que a relação entre fé e ciência melhorou. Cientistas e religiosos tentam compreender os princípios que regem as diferentes áreas, contudo, assegura, “o maior obstáculo para o diálogo é o fundamentalismo nas comunidades religiosas”.

Coyne foi diretor do Observatório do Vaticano durante 28 anos. Em 2009, recebeu o prêmio Van Biesbroeck da Associação Americana de Astronomia por relevantes serviços prestados. Defensor do darwinismo, Coyne trabalha com o diálogo entre fé e ciência, na Universidade do Arizona, localizada na cidade de Tucson, Estados Unidos.

Confira a entrevista:

HU On-Line – Quais são as maiores influências de Charles Darwin sobre Teilhard de Chardin?

George Coyne – Não sei de qualquer influência direta. No entanto, Teilhard certamente se moveu da análise puramente científica de Darwin, mas respeitando-a, para um domínio mais teológico, ou melhor, mais místico.

IHU On-Line – Como Darwin e Chardin contribuem para o diálogo entre fé e ciência?

George Coyne – Ambos deram grandes contribuições, tanto negativas como positivas. Negativas: Darwin foi visto pela maioria dos cristãos como desafiador de seus tradicionais pontos de vista da criação do Universo por Deus e tudo que está nele. Teilhard era reconhecido por pisar longe demais da ciência, e por ficar no terreno teológico ou místico, confundindo os dois setores do conhecimento humano: a ciência e a religião. Positivo: Ambos foram pioneiros no diálogo. Darwin desafiou os cristãos a examinar suas crenças religiosas em virtude da ciência moderna. Teilhard levou a ciência a sério e intuiu o quanto ela poderia ser profícua para a pessoa crente.

IHU On-Line – Qual é a novidade de Chardin na aproximação que promove entre fé e ciência?

George Coyne – Teilhard, intuitivamente – não cientificamente – viu que o melhor que a ciência poderia oferecer, para quem acredita, é o ato de reforçar a sua fé e também de desafiá-la. Mas a fé é o maior desafio.

IHU On-Line – Pensando num diálogo entre esses dois pesquisadores, qual a atualidade da ortogênese defendida por Teilhard em relação à teoria da evolução?

George Coyne – A ortogênese, segundo Chardin, é primitiva demais. O DNA, por exemplo, veio depois de seu tempo. Devemos evitar comparar Darwin e Chardin com conceitos fundamentais da ciência atual, pois eles não tinham nenhum dos conhecimentos científicos que temos hoje. Cada um tinha suas visões, certas ou erradas, mas não podemos julgar esses insights.

IHU On-Line – Quais os caminhos que Chardin indica para a saída da crise ecológica e da crise de valores em que se encontra a humanidade hoje?

George Coyne – Para mim essa é uma das grandes idéias de Teilhard. É quase como se ele antecipasse nossas atuais crises. Ele viu que somos cocriadores do Universo, tão desejado por Deus, e que temos uma séria responsabilidade para com toda a criação divina, e que a nossa própria derradeira salvação é intimamente ligada à forma como nós amamos esse Universo.

IHU On-Line – Como a concepção de universo fértil que o senhor sustenta se relaciona com a teoria da evolução e com as ideias de Chardin?

George Coyne – Muito já foi conhecido pela ciência desde Teilhard, mas suas ideias são apoiadas por aquilo que sabemos agora. O Universo é antigo e tem muitas estrelas. Durante milhares de anos essas estrelas estão suprindo o Universo com os ingredientes químicos para a vida. O Universo é fértil para a vida. Que tal fertilidade tenha produzido vida – as origens dela – ainda é mistério. Teilhard viu isso como um Universo não apenas destinado à vida, mas para “a vida em Cristo” – o ponto Omega, por Chardin. A ciência é congruente com a visão da Teilhard – eu não disse que “o apoia”.

IHU On-Line – Poderia explicar por que o universo fértil é a evolução em escala cosmológica, e a evolução neodarwiniana ocorre na escala biológica?

George Coyne – O Universo inteiro – físico, químico, biológico, mesmo, se você desejar, espiritual, é um deles. A evolução do Universo tem sido contínua e está ainda em curso. Somos nascidos da poeira de estrelas, uma vez que a abundância química para nos fazer veio das estrelas. O Universo fértil deu à luz um conteúdo biológico para o Universo que os neodarwinistas da evolução estudam mais detalhadamente, mas sempre tendo como pano de fundo o Universo evolutivo em uma escala cosmológica.

IHU On-Line – O senhor se diz otimista quanto ao futuro da relação entre ciência e religião. Que avanços percebe nesse diálogo? E que obstáculos persistem?

George Coyne – Vejo uma melhor apreciação das crenças religiosas entre os cientistas. Vejo também um aumento da ânsia entre teólogos para compreender melhor ciência. O maior obstáculo para o diálogo é o fundamentalismo nas comunidades religiosas.

IHU On-Line – Disposto a desfazer o mal-entendido entre fé e ciência, Chardin foi mal-entendido por ambas. Qual é a sua reputação hoje, nesses dois campos?

George Coyne – Claro, ele é reconhecido por todos os cientistas como um dos maiores pensadores científicos de todos os tempos. Ele é menos suspeito entre os crentes religiosos conforme eles amadurecem para compreendê-lo melhor.

IHU On-Line – Os jesuítas têm uma longa tradição científica, assim como os agostinianos. Como essa particularidade facilita o diálogo fé e ciência?

George Coyne – Muitos jesuítas, como aqueles no Observatório do Vaticano, são tanto cientistas profissionais como bem formados em Filosofia e Teologia. Isso certamente contribui para avançar o diálogo ciência-fé.

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