Papa cita Teilhard e sua visão do cosmos como “hóstia viva”

Bento XVI em suas férias anuais em Les Combes, na Itália

Mesmo que poucos o tenham apresentado como um “papa verde”, Bento XVI acumula um impressionante currículo ambiental, desde a instalação de painéis solares no Vaticano ao convite a uma conversão ecológica. Agora, o pontífice também insinuou um possível novo olhar para um santo padroeiro não declarado da ecologia católica, o falecido jesuíta francês, cientista e filósofo Pierre Teilhard de Chardin.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 28-07-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A breve referência de Bento XVI a Teilhard, no dia 24 de julho, louvando sua visão de todo o cosmos como uma “hóstia viva”, pode ser lida em múltiplos níveis – como parte de uma reaproximação do pontífice aos jesuítas, como uma instância a mais para descobrir algo positivo para se dizer a respeito dos pensadores cujos trabalhos dispararam alarmes doutrinais, como Bento XVI fez anteriormente com o rebelde teólogo suíço e ex-colega Hans Küng.

As potenciais implicações para a teologia do meio ambiente, porém, provavelmente irão gerar maior interesse entre os fãs e também entre os inimigos de Teilhard – e mais de meio século depois de sua morte em 1955, o audaz jesuíta ainda tem muitos de ambos. Os admiradores anunciam Teilhard como um pioneiro, que harmonizou o cristianismo com a teoria da evolução. Os críticos acusam que a visão otimista de Teilhard com relação à natureza flerta com o panteísmo.

O comentário de Bento XVI surgiu em uma celebração das Vésperas no dia 24 de julho, na catedral de Aosta, no norte daItália, onde o Papa tirou suas férias de verão entre os dias 13 e 29 de julho.

Rumo ao fim de uma reflexão sobre a Carta aos Romanos, em que São Paulo escreve que o mundo, um dia, irá se tornar uma forma de liturgia viva, o Papa disse: “É a grande visão que, mais tarde, Teilhard de Chardin também teve: no fim, teremos uma verdadeira liturgia cósmica, em que o cosmos se tornará uma hóstia viva”.

“Rezemos ao Senhor para que ele nos ajude a ser sacerdotes nesse sentido”, disse o Papa, “para ajudar na transformação do mundo, em adoração a Deus, começando por nós mesmos”.

Mesmo tendo sido oferecida apenas de passagem e, sem dúvida, sujeita a interpretações exageradas, a frase de Bento XVI, no entanto, provocou manchetes na imprensa italiana sobre uma possível “reabilitação” de Teilhard, referido às vezes como o “Darwin católico”. Essa leitura parece especialmente tentadora, já que, como um teólogo consumado, Bento XVI está consciente da controvérsia que gira em torno de Teilhard e, por isso, compreende o provável impacto de uma possível referência papal.

Ao menos, a frase pareceu oferecer uma benção à exploração das ideias do falecido jesuíta. A impressão pareceu se confirmar pelo porta-voz do Vaticano, o jesuíta Pe. Federico Lombardi, que disse depois: “Até agora, ninguém sonharia dizer que Teilhard é um autor heterodoxo que não deveria ser estudado”.

O discípulo vivo mais proeminente de Teilhard na Itália, o teólogo leigo Vito Mancuso, disse aos repórteres que estava “agradavelmente surpreso” com as palavras de Bento XVI, e que elas tiveram uma “grande importância”.

Teilhard, que morreu em 1955 aos 73 anos, era um jesuíta francês que estudou paleontologia e participou da descoberta dos anos 20 do “Homem de Pequim”, na China, uma descoberta que pareceu confirmar um gradual desenvolvimento das espécies humanas. Teilhard também esteve relacionado com a descoberta em 1912 do “Homem de Piltdown”, na Inglaterra, que depois foi revelado como uma fraude.

Na base de seu trabalho científico, Teilhard desenvolveu uma teologia evolucionária que afirmava que toda criação se desenvolve rumo a um “Ponto Ômega”, que ele identificava com Cristo como o Logos, ou “Palavra” de Deus. Nesse sentido, Teilhard ampliou o conceito de história da salvação para abranger não apenas pessoas individuais e a cultura humana, mas todo o universo. Em pouco tempo, o pensamento de Teilhard se tornou um ponto de partida obrigatório para qualquer abordagem católica sobre o meio ambiente.

Mesmo desde o começo, a teologia de Teilhard também foi vista com precaução pelos oficiais tanto da ordem jesuíta quanto do Vaticano. Dentre outras coisas, os superiores estavam preocupados com o fato de que a sua leitura otimista da natureza poderia comprometer a doutrina da Igreja sobre o pecado original. Em 1962 – sete anos após sua morte –, o escritório doutrinal do Vaticano publicou um aviso de que o seu trabalho “abunda em tais ambiguidades e, de fato, até mesmo em graves erros, de forma a ofender a doutrina católica”.

Em 1981, no 100º aniversário de nascimento de Teilhard, uma especulação explodiu com relação a uma possível reabilitação. Ela foi alimentada por uma carta publicada no L`Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, pelo então cardeal e secretário de Estado, Agostino Casaroli, que elogiou a “impressionante ressonância de sua pesquisa, assim como do brilho de sua personalidade e da riqueza de seu pensamento”. Casaroli afirmou que Teilhard antecipou o convite de João Paulo II a “não termos medo”, a abraçar “cultura, civilização e progresso”.

Respondendo à agitação criada pela carta, o Vaticano publicou uma declaração insistindo que o veredito de 1962 sobre Teilhard ainda vigorava – até hoje, é o último pronunciamento oficial de Roma sobre Teilhard. (A declaração foi publicada em julho de 1981, quatro meses após o então cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, assumir como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé).

Ao longo dos anos, o próprio Bento XVI pareceu às vezes ter duas opiniões à respeito.

Em seu livro de 1968 “Introdução ao Cristianismo” (Loyola, 2005), Ratzinger escreveu que o cristianismo oriental tem uma apreciação mais profunda da dimensão “cósmica e metafísica” do cristianismo do que o Ocidente, mas que o Ocidente parece estar descobrindo essa perspectiva, “especialmente como um resultado dos estímulos do trabalho de Teilhard”. Ele afirmava que Teilhard deu uma expressão autêntica à Cristologia de São Paulo.

Como Papa, Bento XVI usou ocasionalmente uma linguagem que parece refletir um toque teilhardiano. Em sua homilia da Páscoa de 2006, o pontífice se referiu à teoria da evolução descrevendo a Ressurreição como “a maior `mutação`, em absoluto o salto mais decisivo para uma dimensão totalmente nova, como nunca se tinha verificado na longa história da vida e dos seus avanços”.

Porém, a ambivalência de Ratzinger com relação a Teilhard é igualmente muito antiga. Em um comentário na sessão final do Concílio Vaticano II (1962-65), o jovem Ratzinger queixou-se de que a “Gaudium et Spes”, a “Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual”, minimizou a importância da realidade do pecado por causa de uma influência excessivamente “francesa” e especificamente “teilhardiana”.

Acima de tudo, a impressão é de que Bento XVI encontra muitas coisas para gostar da visão cósmica de Teilhard, mesmo que ele esteja preocupado com as interpretações adversas à fé ortodoxa.

O comentário de Bento XVI no dia 24 de julho sobre Teilhard se desenvolve com base no registro mais forte do Papa sobre meio ambiente, considerado por muitos observadores como a característica mais original de seu ensino social. Recentemente, Bento XVI dedicou uma seção de sua nova encíclica social, “Caritas in Veritate”, para fazer um convite a um aprofundamento daquilo que ele chamou de “aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho”.

Em seu recente livro “Ten Commandments for the Environment: Pope Benedict XVI Speaks Out for Creation and Justice” [Dez Mandamentos para o meio ambiente: Papa Bento XVI fala sobre criação e justiça, em tradução livre], a escritora católica Woodeene Koenig-Bricker descreve Bento XVI como “o papa mais verde da história”, defendendo que ele não apenas fez fortes declarações ambientais, mas também colocou-as em prática.

Sob essa luz, poderíamos pensar se a matiz verde de Bento XVI poderia, enfim, permitir que Teilhard seja nomeado santo padroeiro da ecologia católica de jure [pela lei], assim como de facto [na prática]. Se assim for, o dia 24 de julho pode ser lembrado como o primeiro movimento para um “salto evolucionário” na reputação e no status oficial do falecido jesuíta.

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