Pierre Teilhard de Chardin, o esforçado jesuíta de Darwin

A publicação de “A Origem das espécies”, de Charles Darwin – o livro, impresso em 2.500 cópias, foi vendido em apenas um dia –, foi explosiva, desencadeando um feroz debate não só científico, mas entre os teólogos e até entre o grande público. Teve-se assim a prova tangível de que Darwin tinha colocado o dedo na ferida, excluindo, por meio da seleção natural, toda intervenção providencial nas maravilhosas adaptações que a natureza, com grande prodigalidade, nos oferece.

O artigo é do filósofo e historiador italiano Giorgio Celli, publicado no jornal La Stampa, 20-05-2009. A tradução é deMoisés Sbardelotto.

Substituir a versão bíblica de Adão por um prolífico símio pareceu aos cientistas um paradoxo e aos teólogos, uma blasfêmia. Porém, entre os crentes, católicos ou protestantes que fossem, nem todos se uniram ao coro, e alguns, fascinados pela grandiosa palingênese que o cientista inglês havia elaborado, procuraram um compromisso entre essa biologia, abertamente materialista, e as suas crenças religiosas.

Eu gosto de lembrar que, na Itália, um escritor, Antonio Fogazzaro, em uma coleção de ensaios sob o título de “Ascensioni umane” [Ascensões humanas, em tradução livre], que foi publicada na última década do século XVIII, se empenhou em colocar o darwinismo e o Gênesis de acordo, referindo-se a alguns pontos de vista de Santo Agostinho, que conferia autonomia às transformações do mundo e colocando a intervenção de Deus só nas origens.

O romancista de “Piccolo mondo antico” [Pequeno mundo antigo, em tradução livre] escreveu: “Todas as forças da evolução conspiram para a elevação do espírito sobre o corpo”. O caso, que aqui chamamos em causa, do jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, é totalmente particular, porque não se trata de um escritor, ou de um teólogo, mas de um antropólogo físico, especialista em mamíferos fósseis e que participou, pessoalmente, em numerosas escavações paleontológicas em várias partes do mundo. Por exemplo, encontramo-lo com a pá nas mãos em Cho-cutien, um vilarejo próximo de Pequim, onde fósseis humanos foram descobertos, batizados como sinantropos, enquanto hoje são atribuídos ao Homo erectus.

No decorrer dessa aventura paleontológica, da qual participou juntamente o abade Brueil, o maior especialista em pinturas parietais dos caçadores paleolíticos, o nosso Teilhard descobriu, junto com o seu mais notável companheiro de escavações, que os homens fósseis expostos naquele lugar, mesmo que tivessem um cérebro de dimensões ainda reduzidas, já eram capazes de fabricar utensílios de madeira e de pedra e de dominar o fogo.

Teilhard de Chardin acreditava firmemente que a evolução era um fato, e não uma simples teoria. E quando um anatomista, certamente Vialleton, procurou, confrontando os achados fósseis, negar que existissem formas intermediárias, refutando Darwin, o jesuíta se posicionou com autoridade ao lado do cientista inglês, demolindo muitas das argumentações do adversário.

Mas, se a evolução de Teilhard de Chardin era conforme àquela de Darwin com relação aos fatos, se diferenciava profundamente no significado. Os evolucionistas ortodoxos acreditam em uma espécie de trindade: a luta pela vida, a diversidade peculiar entre os indivíduos de uma população e a ação da seleção, que escolheria os menos adaptados, livrando-se deles, e premiaria os mais adaptados, permitindo que se reproduzissem. A seleção seria uma espécie de cinzel metafórico que sempre esculpiria novas formas, novas espécies, novas adaptações. Não nos esqueçamos, porém, que esse processo se desenvolvia às cegas, como um mecanismo que vai adiante por si só, sem um objetivo.

Para Teilhard, pelo contrário, a evolução dos organismos obedecia a um grande projeto, se dirigia rumo ao pontoÔmega, que era o Cristo, que voltaria ao nosso meio no final dos tempos. Portanto, para ele, a palingênese darwiniana tinha um sentido e um fim, que não era a extinção, mas a confluência do processo evolutivo na eternidade. Essa visão, seguramente metafísica, tem a grande vantagem de ser expressada na linguagem de aço transparente dos grandes memorialistas franceses, ou de Bergson, o filósofo da Evolução Criadora, que gostava particularmente do nosso jesuíta.

Alguns pontos de vista do sistema teilhardiano tem algo de profético: como quando ele pensa que a biosfera, a associação dos corpos de todos os organismos, acabará por se desenvolver na noosfera, em que todos os cérebros dos homens, conservando a própria individualidade, se agregarão em um grande órgão cognitivo planetário. Os recentes desenvolvimentos da informática e da Internet poderia constituir os primeiros esboços dessa grande transformação tanto neurológica quanto espiritual. Muitos ensaístas franceses ficaram fascinados por essa perspectiva.

Para ler mais:

  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: