Teilhard de Chardin: um anti-Darwin

Para Luís Miguel Sebastião, o esforço de pensamento de Teilhard de Chardin é o de articular harmonicamente uma visão dinâmica e evolutiva do Universo com a ideia de um Deus criador e pessoal. Teilhard seria antiDarwin no sentido de quem nega o caráter absolutamente aleatório e sem sentido da evolução

Por: Graziela Wolfart e Márcia Junges

“Todo o empreendimento teilhardiano se pode descrever como a tentativa de produzir uma visão unificada do mundo e da vida (…) que pudesse, ao mesmo tempo, ser uma narrativa coerente, dar conta da pluralidade da experiência humana (…) e com ela ser consistente e permitir um horizonte de abertura e de esperança aos humanos que a ela aderissem”. A opinião é do professor português Luís Miguel Sebastião, em entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Em suas respostas, Luís Sebastião lembra que Teilhard de Chardin dizia que “ciência e religião eram como dois meridianos terrestres: afastados maximamente no Equador, tendiam a aproximar-se indefinidamente no pólo. Isto é, quando ambas as formas de saber procuravam dar uma explicação cabal da realidade total (…), tendiam inexoravelmente a aproximar-se. E isso, estou convicto que Teilhard de Chardin conseguiu”. O professor ainda acrescenta que o jesuíta francês “foi capaz de produzir uma mundividência onde se encontraram evolução e sentido (…) e assim foi capaz de construir uma narrativa onde cabem as conquistas da ciência e os dados da revelação”.

Professor no Departamento de Pedagogia e Educação da Universidade de Évora, Portugal, Luís Miguel Sebastião é doutor em Ciências da Educação, com especialidade em Filosofia da Educação pela Universidade de Évora, onde defendeu a tese Possibilidade de fundamentação da educação no pensamento cosmogenésico de Pierre Teilhard de Chardin. É autor, com José Manuel de Barros Dias, de Educação e Construção Europeia no Dealbar do Terceiro Milênio(Évora: A.E.D.E., 1999) e, com Manuel Ferreira Patrício, de Conhecimento do Mundo Social e da Vida. Passos para uma sabedoria da sageza (Lisboa: Universidade Aberta, 2004).

Confira a entrevista

IHU On-Line – Muitas pessoas chamam Teilhard de Chardin de “Darwin católico”. Que aproximações o senhor faria entre ambos os cientistas?

Luís Miguel Sebastião – Antes de nos confrontarmos com o que aproxima Teilhard de Darwin, importa tomarmos consciência daquilo que os afasta. Darwin morreu menos de um ano depois de Teilhard de Chardin ter nascido (Darwin faleceu em 19 de abril de 1882 e Teilhard tinha nascido em 1º de maio de 1881). Charles Darwin tinha publicado, em 1859, a Origem das Espécies e, quando Teilhard começou a sua vida profissional como cientista, a ideia de evolução – do cosmos, da vida, das sociedades – já tinha se instalado como o húmus de todo o conhecimento científico. À grande ebulição intelectual que o darwinismo provocou, respondeu a Igreja Católica com um movimento de fechamento e retração de que a condenação do modernismo pelo Papa Pio X  serve de exemplo. A circunstância de Teilhard de Chardin é, então, a de se sentir espartilhado, mesmo dilacerado, entre dois mundos que, à época, tinham muita dificuldade em se intercomunicar. E é neste contexto que se pode compreender a natureza do seu esforço de pensamento: articular harmonicamente uma visão dinâmica e evolutiva do Universo com a ideia de um Deus criador e pessoal. Em rigor, Teilhard é, então, um antiDarwin.  Não no sentido de quem nega a evolução, mas no sentido de quem nega o caráter absolutamente aleatório e sem sentido da evolução.

IHU On-Line – Em sua opinião, Chardin conseguiu harmonizar a teoria da evolução e o cristianismo?  Por quê?

Luís Miguel Sebastião – É importante que fique muito claro que Teilhard nunca procurou estabelecer uma teoria concordista. Isto é, nunca procurou demonstrar com o recurso à ciência as verdades da fé, nem limitar pela fé o esforço de procura da verdade científica. É com esta cautela em mente que poderemos enfrentar a questão de saber se o padre jesuíta francês conseguiu “harmonizar a teoria da evolução e o cristianismo”. Todo o empreendimento teilhardiano se pode descrever como a tentativa de produzir uma visão unificada do mundo e da vida (uma Weltanschauung) que pudesse, ao mesmo tempo, ser uma narrativa coerente, dar conta da pluralidade da experiência humana (da ciência à mística, da razão à emoção, do conhecimento empírico ao pensamento sistematizado) e com ela ser consistente e permitir um horizonte de abertura e de esperança aos humanos que a ela aderissem. Teilhard de Chardin usou uma imagem muito eficaz, que permite clarificar o seu pensamento. Dizia ele que ciência e religião eram como dois meridianos terrestres: afastados maximamente no Equador, tendiam a aproximar-se indefinidamente no pólo. Isto é, quando ambas as formas de saber procuravam dar uma explicação cabal da realidade total – Teilhard diria nas proximidades do todo – tendiam inexoravelmente a aproximar-se. E isso, estou convicto que Teilhard de Chardin conseguiu. O jesuíta francês foi capaz de produzir uma mundividência onde se encontraram evolução e sentido, e disso deu conta no seu magistral O Fenômeno Humano. E assim foi capaz de construir uma narrativa onde cabem as conquistas da ciência e os dados da revelação.

IHU On-Line – Os críticos de Chardin acusam-no de ter uma visão demasiada otimista da natureza, que flerta com o panteísmo. Em que medida o jesuíta se inspira em Darwin para compor a sua cosmovisão?

Luís Miguel Sebastião – Esta questão é, na realidade, um conjunto de questões, a que procurarei responder de per si: a questão do otimismo em Teilhard de Chardin, a questão do panteísmo e a questão da inspiração darwinista do seu pensamento. Foram todas questões que lhe foram suscitadas em vida e as quais ele próprio teve oportunidade de responder. Não deixa de ser interessante que Louis Salleron  tenha chamado a Teilhard de Chardin de “desesperado do Cosmos” e tenha atribuído o seu otimismo a uma estratégia para sobreviver psicologicamente a essa angústia. Julgo que mesmo que essa interpretação possa ter algo de verdade, a base essencial do chamado otimismo teilhardiano decorre da sua profunda convicção de que o Universo foi criado por Deus para que nele pudesse emergir a consciência e para que, através desta, todo o Universo pudesse ser redimido. E, sendo assim, como é que poderia não se cumprir esse desígnio maior? Teilhard não tem ilusões quanto à maldade dos homens. E sabe, até, que a humanidade, no uso da sua liberdade, poderia colocar tudo a perder. O que acontece é que ele não acredita que isso seja possível. Como acontece com os grandes números, em que graus de liberdade dos componentes individuais não comprometem o resultado global, assim também o desnorte de indivíduos humanos não será de maneira a prejudicar a humanidade. Por isso, o otimismo de Teilhard é feito de confiança e não de uma qualquer crença irracional, ou do desconhecimento das faces mais obscuras da natureza humana.

Do mesmo modo, uma leitura atenta do pensamento do eminente paleontólogo põe em evidência o fato de que este está longe de qualquer tentação panteísta. A fé que Teilhard diz ter na matéria não é senão a forte convicção no fato de que a matéria é animada por dentro pela força cósmica fundamental que puxa a criação para a complexidade progressiva e, em consequência, para a consciência. Esta força, que Teilhard identifica com a componente radial da energia que anima o Universo, não é senão o Amor que imana de Deus e que faz com que todas as coisas convirjam umas para as outras. É Deus, o Deus dos católicos, em particular na compreensão que d’Ele teve São Paulo, que é o princípio e o fim do Universo, o alfa e o Omega, para Teilhard de Chardin. E em nenhum momento da sua vida ou dos seus escritos Teilhard duvidou desta que é, para si, uma verdade fundamental e instituinte.

Por último, vejamos o problema das influências de Darwin sobre o pensamento de Teilhard.

O naturalista inglês faz parte daquele número muito restrito de pessoas que introduziram um marco que divide o tempo em dois. Há um antes de Darwin e um depois de Darwin. Nessa medida, é claro que a sua influência no pensamento de Teilhard é enorme. Mas, e já o disse em resposta anterior, o pensamento do jesuíta francês construiu-se a partir de premissas e com intencionalidade opostas ao do naturalista. Esta afirmação poderá parecer, talvez, demasiado ousada. Até porque Teilhard socorre-se de um conjunto de mecanismos explicativos que parecem plasmados diretamente do pensamento darwinista. Mas impõe-se que nunca percamos de vista que aquilo que para Darwin é um fim, para Teilhard é um meio. Porque para este, a evolução tem um sentido e uma intencionalidade, ideias que são completamente estranhas ao pensamento de Charles Darwin.

IHU On-Line – Quais os principais pontos da educação inspirada em Teilhard de Chardin? Quais as possibilidades de fundamentação da educação no pensamento de Chardin?

Luís Miguel Sebastião – Excetuando algumas notas do seu diário, nos tempos em que ensinou Física no Cairo, e de algumas referências em cartas dirigidas à sua prima Margueritte Teillard-Chainbom, e num pequeníssimo ensaio em que apresenta a educação como um processo de “hereditariedade social”, Teilhard de Chardin não tratou expressamente a questão da educação. Por isso, a utilidade do pensamento do jesuíta francês para esta problemática decorre da utilidade que lhe encontramos para fundamentar um projeto antropológico que sirva de base ao projeto educativo global. A educação, sendo a ação humana por excelência, aquela pela qual os humanos se constroem a si próprios, pressupõe uma visão do mundo que possibilite aquilo a que Teilhard de Chardin chamava o gosto de viver. Ora, para o próprio Teilhard, o gosto de viver depende de três condições que devem respeitar as mundividências. Por isso, para além de serem coerentes em si mesmas e consistentes com os dados da realidade e da ciência, as narrativas que conformam as visões do mundo e da vida devem assegurar aos indivíduos que o seu esforço pessoal conta, que esse esforço é cumulativo, o que assegura o progresso, e que esse esforço persistirá para sempre. Ora, a visão do mundo e da vida proposta e sustentada por Pierre Teilhard de Chardin cumpre cabalmente essas condições. E é por isso que julgo que o seu pensamento e o seu empreendimento são do máximo interesse para o esforço educativo nas sociedades contemporâneas.

IHU On-Line – Para Teilhard, o que era preciso para unificar homem e mundo? Qual o lugar da fé nessa relação?

Luís Miguel Sebastião – Uma das características mais marcantes do pensamento de Teilhard de Chardin é a sua recusa persistente em coisificar a realidade. A realidade, para si, é um processo. Nesse sentido, em rigor não se pode falar em homem e mundo, mas em homem no mundo; homem com o mundo; homem como flecha da evolução. Assim, o grande desígnio a que os homens são chamados é, justamente, o de assumirem consciente e coletivamente esta sua condição e de aceitarem juntar o seu esforço pessoal a este grande caminho da humanidade, em direção a mais consciência e mais humanidade. A fé surge, neste contexto, como pressuposto e como corolário. Como pressuposto, porque é à luz da fé que um grande desígnio universal assume sentido e realidade. Como corolário, porque puxadas até às últimas consequências, as linhas de força do Universo teilhardiano se abrem sobre um plus ultra, um mais além, que pela força do Amor o sustenta e vai construindo num ato permanente de criação. E que tem em Cristo, no Cristo Paulino, a sua expressão primeira e última.

IHU On-Line – Em que medida os conceitos de noogênese e cosmogênese, a partir da inspiração de Teilhard, se tornam tão atuais?

Luís Miguel Sebastião – De acordo com o pensamento de Teilhard, há uma lei recorrente na natureza pela qual a evolução se vai explicando pelo persistente aumento de complexidade das estruturas que encabeçam a marcha do progresso evolutivo. A estrutura mais complexa do universo é o cérebro humano. E foi essa complexidade que permitiu a emergência da consciência. Foi esse o momento em que começou o processo de noogênese que, para continuar a aprofundar-se, passou a depender da capacidade que os humanos foram desenvolvendo para estabelecerem redes de cooperação. Socorrendo-nos de uma imagem que nos ajude a perceber este conceito, Teilhard dizia que, do mesmo modo que o cérebro é uma rede de neurônios, a noosfera será constituída por uma rede de cérebros. Esta rede de cérebros não se constitui automaticamente. Pressupõe vontade e projetos comuns. Mas é, segundo Teilhard, o caminho seguro que nos levará à sobre-humanidade e que preparará o grande momento em que o Universo, vindo do puramente exterior, da miríade das partículas provenientes do Big Bang, transformar-se-á na pura interioridade de um universo completamente amorizado e entregue ao Pai pelo Cristo pantocrator. Há mesmo quem veja na emergência da world wide web a cablagem nervosa que viabilizará o funcionamento do supercérebro da superhumanidade prognosticada por Teilhard de Chardin. Vivemos num tempo em que a complexidade da sociedade e das organizações humanas pressupõe, por si só, abordagens organizacionais também elas complexas, baseadas na capacidade de cooperação e na partilha de objetivos comuns. E daí decorre a atualidade da intuição teilhardiana.

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