Teilhard: o fenômeno humano. O jesuíta foi precursor do que foi chamado de evolucionismo cristão. Um artigo de Carlos Heitor Cony

 Carlos Heitor Cony traça um perfil de Teilhard de Chardin, jesuíta, no artigo publicado hoje, 16-6-2006, no jornal Folha de S. Paulo. O cinqüentenário da morte de Teilhard de Chardin foi comemorado pela Unisinos, há um ano, no Simpósio Internacional Terra Habitável organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos. 

Eis o artigo de Carlos Heitor Cony:”Durante muito tempo, seus livros não puderam ser editados: ele era o jesuíta proibido. Depois de sua morte, em 1955, tornou-se um dos nomes mais discutidos de nossa época. Os setores mais conservadores da igreja acusam-no de heresia, mistificação e até de charlatanice. Outros o consideram um gênio e um santo.

Sete de novembro de 1926. O padre Teilhard de Chardin, então com 45 anos de idade, interrompe os seus trabalhos de paleontólogo em Tientsin, na China, e escreve à sua prima Margueritte Chambom:

“Estou decidido a relatar o mais simplesmente possível a experiência ascética e mística que vivo e ensino há algum tempo. Não pretendo abandonar o rigor do cristianismo. Mas quero ir adiante”.

Naquela carta estava, em embrião, a grande incógnita de sua personalidade. Aquele “ir adiante” era filosófico demais para um místico e místico demais para um filósofo. No fundo, o padre Teilhard era um paleontólogo. A mistura de tudo isso -o paleontólogo, o filósofo e o místico- criaria a feição definitiva de Marie-Joseph Pierre de Teilhard de Chardin, descendente de nobres, “o jesuíta proibido” que muitos consideram um santo, outros o Marx da teologia e alguns um simples charlatão.

Naturalista por instinto e vocação, Teilhard demonstrou desde a infância uma profunda inclinação pela observação do mundo que estava fora dele, e não dentro. Curiosamente, essa inclinação levou-o à vida religiosa: em 1899, fazia o seu noviciado na Companhia de Jesus, em Aix-en-Provence. Logo depois, quando ensinava química e física num colégio jesuíta do Cairo, tomou sua mais firme e dramática decisão: as ciências naturais não seriam um “hobby”, mas a sua própria razão de vida.

Nascido em 1881, ordenou-se padre em 1911. Foi padioleiro durante a guerra, em 1914. Beirando os 30 anos, Teilhard aproveitou a guerra como uma pausa em suas pesquisas, mas nesse período lançaria os fundamentos de seu sistema, que seria ao mesmo tempo existencial e especulativo. Parodoxal que fosse essa decisão, pelo menos era inoportuna para um padioleiro na retaguarda das linhas francesas.

Ele conhecia por antecipação os riscos que correria nessa tentativa de dar corpo à sua doutrina. Tinha dois sérios entraves pela frente: o primeiro seria resvalar para o embuste e a mistificação em que tantos se afundaram ao procurarem concretizar essa mesma síntese. O segundo seria a suspeição e a censura da própria igreja, zelosa em preservar um dos principais alicerces de sua estrutura doutrinária e moral: a fé, que para ela é mais do que um dogma, mas uma virtude teologal.

O jesuíta escrevia a um amigo, em 15 de março de 1916:

“Enquanto não progredir e me organizar num Absoluto, serei apenas um tímido e um fraco entre os homens, embora saiba que a alternativa que me resta seja penosa: para a minha religião, serei considerado um trânsfuga”.

Tomada essa decisão, Teilhard de Chardin dela não se afastaria, embora soubesse que em seu caminho se erguia o primeiro e mais traiçoeiro obstáculo daquela aventura filosófica e religiosa: ele teria de aceitar a doutrina evolucionista. E “ir adiante” apesar de e contra tudo. Essa doutrina, polêmica até hoje, fazia parte da bagagem cultural do Ocidente desde meados do século 18, embora fosse tenazmente combatida pela Igreja Católica que a catalogou entre a heresia (religiosa) e a estupidez (científica).

Foi neste quadro que Teilhard de Chardin decidiu aderir ao evolucionismo, num desafio brutal a uma tradição conformista de seus colegas religiosos. É famosa a habilidade dos jesuítas em se livrar de problemas semelhantes: Teilhard recebeu ordem de embarcar para Tientsin, na China, onde a Companhia de Jesus acabava de abrir um instituto de estudos superiores. Era mais do que um exílio. Em Tientsin, a voz de Teilhard não teria ressonância nos meios culturais e científicos.

Foi um erro tático da Companhia de Jesus. Ela ignorava que na China, naquela ocasião, realizavam-se diversas escavações e expedições paleontológicas. Sem querer, os jesuítas tinham posto o homem certo no tempo e nos lugares certos. Embarcando em Marselha em 1923, Teilhard de Chardin permaneceria na China até 1946, com raras viagens ao Ocidente.

Teilhard não se afastou dos estudos e pesquisas. Aprofundou-se cada vez mais na ciência, sabendo que, através dela, poderia criar um novo sistema teológico. Em sua mente, começaram a tomar forma os principais conceitos que mais tarde seriam catalogados como o evolucionismo cristão. E muito mais do que isso.”

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