Deus Ponto Omega: Teilhard de Chardin

Trecho do artigo:

IMAGENS DE DEUS NA PÓS-MODERNIDADE

J. B. Libanio

Partindo duma perspectiva evolucionista, Teilhard de Chardin faz uma pergunta diferente da de K. Rahner. O teólogo alemão trabalha a pergunta transcendental numa perspectiva antropológica. O ser humano é o lugar de revelação da direção do processo evolutivo. Ele atinge sua plena realização no mistério da Encarnação. Teilhard faz outra pergunta. Qual é o sentido teológico desse dado da ciência. Ao respondê-la, delineia uma imagem de Deus como Ponto Ômega, num sentido também bem diferente do de A. Tipler.

Teilhard exprime sua intuição fundante num de seus escritos bem antigos.

“A princípio fiquei impressionado, como qualquer um, pela espécie de prioridade de que gozam nos acontecimentos o Inferior e o Passado. Em seguida, sob pena de não compreender nada em mim mesmo e nem ao meu redor, foi-me necessário, mudando de perspectiva, atribuir toda eminência ao Futuro e ao Maior.

“O que dá consistência ao Universo à nossa volta, creio eu, não é a aparente solidez dos materiais efêmeros com que se constróem os corpos. Mas é a chama de organização que, desde a origem, perpassa o mundo e nele se propaga. O mundo, com todo o seu peso, leva a um centro colocado diante de si. Longe de serem frágeis e acidentais, são as almas, as alianças de almas, as potências de almas, que sozinhas progridem infalivelmente e sozinhas devem perdurar. O que é impossível ao Mundo é mais do que aquilo que nele podemos tocar….Crede no espírito” ( )…

Em outro lugar escreve:

“O que há de mais revolucionário, em última análise, e de mais fecundo em nosso Tempo novo, é a relação que este deixa transparecer entre Matéria e Espírito: o Espírito não independe mais da Matéria nem se opõe a ela, – (a menos, naturalmente, que por ‘Matéria’ se entenda, num sentido ‘reduplicativo’ e restrito, esta porção do Universo que ‘desce de novo’ escapando à corrente montante da Noogênese), – mas emerge laboriosamente dela sob a atração de Deus por via de síntese e de centração” ( ).

A concepção evolucionista de Teilhard é dinâmica e existencial. O mundo está sempre em mudança, em ascensão “espiral” para uma meta determinada. Evolui numa direção pessoal, tendo como pontos centrais o aparecimento da pessoa humana e a união da humanidade com o Cristo pessoal no fim dos tempos. O universo constitui um único todo coerente em evolução. Único e vasto corpo cujas componentes são solidárias entre si. Proveio de uma única e mesma energia primitiva de natureza psíquica ou espiritual de caráter ambivalente. Tem dupla potencialidade. Há a energia tangencial que é o aspecto material das coisas. Por ela os átomos, moléculas se ligam entre si enquanto são da mesma ordem. Há a energia radial que é a força psíquica. No seio da matéria, leva-a à construção de elementos mais complexos e, por isso, à constituição de formas novas (átomos em moléculas, moléculas em mega-moléculas, etc).

Desta ambivalência da energia primeira resulta que toda matéria é portadora de consciência e psiquismo. Existem graus diversos de consciência nas diversas camadas da criação, nos diferentes níveis dos seres. Matéria e consciência evoluem seguindo a lei de complexidade-consciência. Cada grão de matéria inclui energia psíquica. Quanto mais complexas forem as estruturas das construções materiais tanto mais quantidade e qualidade de consciência.

Nessa perspectiva, emerge a imagem de Deus como Ponto Ômega de um longo processo de amorização. Passa-se do mundo estático do Deus da ordem, de cima, da contemplação estática para o Deus do futuro, do Para-frente (Dieu d’en avant). A convergência na amorização se realiza sob a influência de um pólo de atração universal que se acha colocado no termo da evolução, seu ativador, o Ponto culminante Omega. Ele corresponde à Consciência Suprema. É Transcendente, soberanamente personalizado, é o Amor Absoluto, a totalização, a suprema personalização, a suma centração da humanidade, energia radial máxima. É Cristo, é Deus. Ponto de convergência da evolução, do mundo rumo ao futuro no qual todos se amam, tudo se encontra, conheça ou não o Cristo. Traz em si potencialmente a possibilidade da conciliação da visão cristã com a visão evolucionista do universo. Ponto nodal de articulações das fases da evolução.

Portanto, a representação científica do universo nos apresenta uma estrutura convergente. Deus, sendo pensado neste esquema, surge como último ponto de convergência ( ).

É a imagem de um Deus prospectivo que coroa, consuma a evolução e surge como centro de convergência do universo. Não é extrinsecista, como a tradicional, nem também simplesmente evolucionista imanentista, mas evolucionista transcendente, “en avant avec Dieu en haut”.

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