A Missa sobre o mundo

Pe. Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955).
Sacerdote jesuíta e investigador francês

O texto, de que apresentamos um excerto, foi redigido quando o religioso jesuíta estava na China e ficou sem pão e vinho para celebrar a eucaristia.

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Senhor, já que uma vez ainda, não mais nas florestas da França, mas nas estepes da Ásia, não tenho pão, nem vinho, nem altar, eu me elevarei acima dos símbolos até à pura majestade do Real, e vos oferecerei, eu, vosso sacerdote, sobre o altar da terra inteira, o trabalho e o sofrimento do mundo.

O sol acaba de iluminar, ao longe, a franja extrema do primeiro oriente. Mais uma vez, sob a toalha móvel de seus fogos, a superfície viva da Terra desperta, freme, e recomeça o seu espantoso trabalho. Colocarei sobre minha patena, meu Deus, a messe esperada desse novo esforço. Derramarei no meu cálice a seiva de todos os frutos que hoje serão esmagados.

Meu cálice e minha patena, são as profundezas de uma alma largamente aberta a todas as forças que, em um instante, vão elevar-se de todos os pontos do Globo e convergir para o Espírito. – Que venham pois, a mim, a lembrança e a mística presença daqueles que a luz desperta para uma nova jornada!

Um a um, Senhor, eu os vejo e os amo, aqueles que me destes como sustento e como encanto natural de minha existência. Um a um, também, eu os conto, os membros dessa outra e tão cara família que pouco a pouco as afinidades do coração, da pesquisa científica e do pensamento juntaram à minha volta, a partir dos elementos mais diversos. Mais confusamente, mas todos sem exceção, eu os evoco, aqueles cujo exército anónimo forma a massa inumerável dos vivos: aqueles que me rodeiam e me sustentam sem que eu os conheça; aqueles que vêm e aqueles que vão; sobretudo aqueles que, na Verdade ou através do Erro, no seu escritório, laboratório ou fábrica, creem no progresso das Coisas e, hoje, perseguirão apaixonadamente a luz.

Quero que neste momento o meu ser ressoe ao murmúrio profundo dessa multidão agitada, confusa ou distinta, cuja imensidão nos espanta, – desse oceano humano cujas lentas e monótonas oscilações lançam a inquietação nos corações mais crentes. Tudo aquilo que vai aumentar no Mundo, ao longo deste dia, tudo aquilo que vai diminuir, – tudo aquilo que vai morrer, também, – eis, Senhor, o que me esforço por reunir em mim para vos oferecer; eis a matéria de meu sacrifício, o único que vós podeis desejar.

Outrora, carregava-se para vosso Templo as primícias das colheitas e a flor dos rebanhos. A oferenda que esperais agora, aquela de que tendes misteriosamente necessidade cada dia, para aplacar a vossa fome, para acalmar a vossa sede, é nada menos do que o crescimento do mundo impelido pelo devir universal.

Recebei, Senhor, esta Hóstia total que a Criação, movida por vossa atração, vos apresenta à nova aurora. Este pão, nosso esforço, não é em si, eu o sei, mais que uma degradação imensa. Este vinho, nossa dor, não é ainda, ai de mim, mais que uma dissolvente poção. Mas, no fundo dessa massa informe, colocastes – disso estou certo, porque o sinto – um irresistível e santificador desejo que nos faz a todos gritar, desde o ímpio ao fiel:

“Senhor, fazei-nos Um!

Porque, à falta do zelo espiritual e da sublime pureza de vossos santos, deste-me, meu Deus, uma simpatia irresistível por tudo quanto se move na matéria obscura, – porque irremediavelmente, reconheço em mim, bem mais que um filho do Céu, um filho da Terra, – subirei, esta manhã, em pensamento, às alturas, carregado das esperanças e das misérias de minha Terra-Mãe; e lá, por força de um sacerdócio que somente Vós, creio, me destes, – sobre tudo aquilo que, na Carne humana, se prepara para nascer ou perecer sob o sol que se levanta, eu chamarei o Fogo. (…)

O fogo no mundo

Aconteceu.
O fogo, mais uma vez, penetrou na Terra.
Não caiu ruidosamente sobre os cimos como o raio em seu fragor.
Força o Mestre as portas para entrar em sua casa?

Sem abalo, sem trovão, a chama iluminou tudo por dentro. Desde o coração do menor átomo à energia das leis mais universais, ela tão naturalmente invadiu, individual e conjuntamente, cada elemento, cada mola, cada liame do nosso Cosmos que ele, poder-se-ia crer, inflamou-se espontaneamente.

Na Humanidade nova que hoje se engendra, O Verbo prolongou o ato sem fim do seu nascimento; e, por virtude de sua imersão no seio do Mundo, as grandes águas da Matéria, sem um arrepio, carregaram-se de vida. Nada estremeceu, aparentemente, sob a inefável transformação. E, entretanto, misteriosa e realmente, ao contacto da substancial Palavra, o Universo, imensa Hóstia, fez-se Carne. Meu Deus, toda a matéria é doravante encarnada, pela vossa Encarnação.

Há tempo que nossos pensamentos e nossas experiências humanas reconheceram as estranhas propriedades do Universo que o fazem tão semelhante a uma Carne…

Como a Carne, ele nos atrai pelo encanto que flutua no mistério de suas dobras e na profundidade de seus olhos.

Como a carne, ele decompõe-se e escapa-nos sob o trabalho das nossas análises, das nossas quedas e da sua própria duração.

Como a Carne, ele não se abraça verdadeiramente senão no esforço sem fim para atingi-lo sempre mais além daquilo que nos é dado.

Senhor, todos nós sentimos, ao nascer, essa mistura inquietante de proximidade e distância. E, não há, na herança de dor e de esperança que transmitem as idades, não há nostalgia mais desolada que aquela que faz o homem chorar de irritação e de desejo no seio da Presença que paira, implacável e anônima, em todas as coisas, à sua volta: “Que definitivamente os homens A alcancem…”

Agora, Senhor, pela Consagração do Mundo, o clarão e o perfume flutuando no Universo, tomam, em Vós, corpo e feição para mim. Aquilo que o meu pensamento hesitante entrevia, aquilo que o meu coração reclamava por um desejo inverossímil, Vós mo concedeis magnificamente: que as criaturas não sejam somente solidárias entre si, a ponto de nenhuma poder existir sem que todas as outras a rodeiem, – mas que sejam de tal maneira sustentadas pelo mesmo centro real, que uma verdadeira Vida, experimentada em comum, lhes dê definitivamente a sua consistência e a sua união.

Fazei explodir, meu Deus, pela audácia de vossa Revelação, a timidez de um pensamento pueril que nada ousa conceber de mais vasto, nem de mais vivo no mundo, que a miserável perfeição de nosso organismo humano! Na via de uma compreensão mais perfeita do Universo, os filhos do século ultrapassam, a cada dia, os mestres de Israel. Vós, Senhor, Jesus, “em quem todas as coisas encontram a sua consistência”, revelai-Vos enfim àqueles que vos amam, como a Alma superior e o Foco físico da Criação. Trata-se de nossa vida, não vedes? Se eu não pudesse acreditar que a vossa Presença real anima, enleva, aquece a menor das energias que me penetram ou que me roçam, não morria de frio, enregelado no âmago do meu ser?

Obrigado, meu Deus, por terdes, de mil maneiras, conduzido o meu olhar até fazê-lo descobrir a imensa simplicidade das Coisas! Pouco a pouco, sob o desenvolvimento irresistível das aspirações que depositastes em mim quando eu era ainda uma criança, sob a influência de amigos excecionais que surgiram na altura exata ao longo de meu caminho para esclarecer e fortalecer o meu espírito, sob o despertar de iniciações terríveis e doces cujos círculos me fizestes sucessivamente transpor, chego a nada mais poder ver nem respirar fora do Meio onde tudo não é mais que Um.

Neste momento em que a Vossa vida acaba de passar com um acréscimo de vigor no Sacramento do Mundo, experimentarei, com uma consciência maior, a forte e calma embriaguez de uma visão cuja coerência e harmonia não chego a esgotar. (…)

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